12.11.06
11.11.06
6.11.06
Saddam e o aborto. Um exercício cru
Considerem-se as seguintes possibilidades:
1. Sim à pena de morte de Saddam e sim ao aborto.
2. Sim à pena de morte de Saddam e não ao aborto.
3. Não à pena de morte de Saddam e sim ao aborto.
4. Não à pena de morte de Saddam e não ao aborto.
1. Sim à pena de morte de Saddam e sim ao aborto.
2. Sim à pena de morte de Saddam e não ao aborto.
3. Não à pena de morte de Saddam e sim ao aborto.
4. Não à pena de morte de Saddam e não ao aborto.
O "sim" só deve ser escolhido se a convicção de legitimidade da acção é tão profunda que se actuaria em execução do acto em questão (aplicar a pena de enforcamento ou submeter-se a um aborto ou participar na decisão, consoante se seja mulher ou homem).
Por "aborto" entende-se a interrupção de uma gravidez apenas durante a fase embrionária.
3. comporta uma muito crua implicação: é mais repugnante matar um facínora que inviabilizar um projecto de filho.
Podia dar-lhe uma volta e dizer que é mais repugnante tirar a vida a um homem que eliminar um mero embrião, mas isso obscureceria as coisas. O que é interessante, para quem subscreve 3., como eu, é haver-se com a crueza da escolha.
Essa crueza não me convida a ir acomodar-me em 4., visto que o critério de 4. não é mais claro (não há consistência numa posição de defesa absoluta da "vida", nem mesmo para quem não mata uma mosca, basta que coma peixe, use sapatos de pele, pise uma minhoca ou arranque da terra uma cenoura).
Essa crueza permite ainda reparar que seria muito mais triste inviabilizar um projecto de filho que saber da (repugnante) morte de um facínora. Mas isso é assim apenas porque a tristeza é a emoção com que se reage ao infortúnio, enquanto a repugnância é a emoção com que se assinala o mal.
2.9.06
Um, dois, três... experiência (da vida?)
30.8.06
28.8.06
Estocadas, penetrações e lanças gloriosas
Com a energia e o vigor destes joelhos, peixes, gargantas, elmos e papoilas só tenho lido ultimamente literatura erótica. Se é que tenho lido. Belos, virtuosos e deslumbrantes homens no ... bl_g_ _x_st_.
27.8.06
Passa-me a salada

A vantagem de se ver o telejornal é que a informação já vem praticamente toda processada, tanto no aspecto em que vem desossada, como no aspecto em que já vem por ordem de importância. Não me escapasse a atenção para o secundário, teria sido possível ficar a saber ontem que o Futebol (Louvado-seja) assim, e o Futebol (Louvado-seja-nas-alturas) assado, e a Liga (Santíssima) cozido, e a Federação (Os-nossos-corações-estão-ao-alto) assado e muitíssimos pormenores e sensibilidades sobre isto, que questionam os fundamentos da civilização. Isto deu tempo para passar do aperitivo à sopa e da sopa à parte dos lombinhos de pescada, que se compram já sem espinhas e sem pele. Nos fait-divers, e à sobremesa, ao terminar o postre lácteo, também soube que uma prostituta apareceu morta numa rua de lisboa e, segundo uma entrevistada, a prostituta, que era uma prostituta, até nem costumava andar por ali àquelas horas na sua vida de prostituta e a menina das notícias confirmou qualquer coisa que voltou a requerer a utilização repetida do termo designativo, a saber, prostituta. Ao café já eu sabia que quem tiver Cães já pode proporcionar-lhes Fisioterapia. Nem é preciso palitar os dentes.
26.8.06
19.8.06
Sweet Fifteen, Never Kissed Before (Anymore) - Sweet Sour Fifteen - SS 15
Christoph Schmidberger, Untitled. 2005
Predominante a compaixão, lamenta-se o homem que viveu o peso silente de opções que eram naqueles dias tão banalmente prováveis e fáceis e tentadoras quão banal é, quase sempre, o acto leviano, cúpido, maldoso, rapace.
Predominando a mágoa, predominando a fidelidade, predominante a raiva pelo sofrimento inútil, o homem não tem redenção, nem desculpa.
Predominante a compaixão, lamenta-se o homem que viveu o peso silente de opções que eram naqueles dias tão banalmente prováveis e fáceis e tentadoras quão banal é, quase sempre, o acto leviano, cúpido, maldoso, rapace.Predominando a mágoa, predominando a fidelidade, predominante a raiva pelo sofrimento inútil, o homem não tem redenção, nem desculpa.
Lamento o homem. Se tivesse sabido hoje que ele tinha sido o assassino do meu pai, do meu filho, do meu amigo, dos meus, não saberia encontrar apaziguamento para a minha raiva, talvez lhe arrancasse eu própria os olhos. A raiva em que se transforma uma mágoa assim é justa; bem como o nojo, que é uma forma de raiva surda.
A raiva justa, todavia, desculpa-se, compreende-se; em nenhum momento se confunde com um critério racional de agir, de ajuizar. A não ser que se trate de agir ou ajuizar perante a impureza ritual, a da violação da regra sacralizada em tabu, em vez de agir ou ajuizar sobre a violação de um preceito de conduta. A raiva justa compreende-se; a condenação à impureza verifica-se.
Lamento o homem. Pela banalidade, pelo peso do silêncio e, agora, pelo nojo.
16.8.06
A má acção. Censura e impureza.
Take 1.
- Ó pá, desculpa lá, foi sem querer/estava em erro e não percebi a javardice que estava a fazer.
Take 2.
- Ó pá, desculpa lá, não sabia o que estava a fazer/não pensei bem/era um parvo.
- Ó pá, desculpa lá, foi sem querer/estava em erro e não percebi a javardice que estava a fazer.
- Ahh, então se foi sem querer/se reconheces e superaste o erro, o que fizeste não é tão mau como parece. Toma lá uma desculpadela/uma censura atenuada.
Take 2.
- Ó pá, desculpa lá, não sabia o que estava a fazer/não pensei bem/era um parvo.
- Soubesses ou não/tenhas ou não tenhas superado o erro/tenhas ou não actuado outramente e bem, fizeste o que não é de fazer. Estás impuro, contaminado pela hedionda acção. Ainda bem que nunca te apertei a mão. Vai furar os olhos. Quero lá saber que te chames Grass, ou Édipo ou lá o que for.
15.8.06
22.7.06
Tempo do Mal
Um rapaz sem flor de acne disse por aí que era sexta (ou sábado), havia anos talvez, e ela não apareceu. Insana. Ou, se não, trocados estariam os relógios...
19.7.06
Post moderno na efeméride
(...)
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.
(...)
Em honra dos (glaciais) humores cruéis, frenéticos e exigentes, no aniversário da morte de Cesário Verde.
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.
(...)
Em honra dos (glaciais) humores cruéis, frenéticos e exigentes, no aniversário da morte de Cesário Verde.
17.7.06
Ciências do natural #3. O discreto e o contínuo no verbo "estar"
Há dias que não passaram, outros que se degradaram no uso da recordação e se tornaram miragens. Há muitas coisas para fazer sempre, há sempre muitas coisas, os dias são vítima disso. Em alguns dias bem-aventurados, pode-se soltar o tempo de mergulhar, os olhos presos pelos olhos. Quem diz os olhos, diz uma área circunscrita de pele, uma sombra fresca, uma guinada de som, uma ideia cheia e sumarenta. Fazem-se instantes que são infinitos contínuos, nós mesmos enrolados em clausura firme, num tempo que parece para sempre, para sempre, fincados num nó apertado da memória. É daí que depois espreitamos os dias discretos que passam, de onde tantas vezes estamos ausentes.15.7.06
14.7.06
Check list
Diana Blok, Boy with Birdcage. 2003 [click!]

Basta de candeeiros e beatas, de passadeiras e escadas, de deglutições em magote, de gravatas relativamente recentes e de camisas mal passadas por enfermeiras ucranianas.

Basta de candeeiros e beatas, de passadeiras e escadas, de deglutições em magote, de gravatas relativamente recentes e de camisas mal passadas por enfermeiras ucranianas.
Basta de ATM's e de blisters (mas alguém tem de fazer um poema rapidamente com a palavra blister!) e de brushings e de unhas manicuradas que só duram dois dias. De aftershaves a conta também já chega.
Basta de ideias inúteis e de descobridores de fósforos.
Basta de ideias inúteis e de descobridores de fósforos.
Já chega de sabões, detergentes, ratos sem fios e a tralha a acumular-se e de grupos de meninas em três na cervejaria do Chiado, a gordinha a chaperonar a bonitinha, a viborazinha em treinos. Prefiro também não ver pijamas intelectuais pelos locais de estilo. Alguém que me explique também o que se passa em algumas livrarias, onde todas as almas penadas circulam num ritmo amoroso fúnebre.
Ainda não estou a fazer oitenta anos, mas mesmo assim digo que já basta. Não tarda, zarpo para as ilhas, com as vacinas em dia.
10.7.06
Práticas eugénicas
Considerando que as universidades são caldo de endogamias, fica-se a aguardar com grande expectativa o resultado do cruzamento da competência académica de umas com a competência atlética de outros. É este o meu comentário - muito lateral, é certo - ao dossiê do NYTimes sobre assimetrias de género nas universidades americanas. Os rapazes das famílias más andam tramados; por cá também, mas ainda ninguém lhes deitou a mão.
9.7.06
O que se faz #5. Costura-se a voz
Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem
falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta
e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme
("Poema I" da Luiza Neto Jorge)
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem
falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta
e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme
("Poema I" da Luiza Neto Jorge)
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