Uma das tiras preferidas deste grande poema, também dos preferidos meus. Mas acho que "irrequieto" não é a melhor tradução de "findig", o inglês "resourceful" parece-me melhor.
Lutz,pois, também não me parece muito bem. À letra, "férteis em expedientes", segundo o Pauker, mas não me soa bem. Muito comprido, mau som. Bichinhos expeditos? Parecem-me tecnoráticos de mais. O som é melhor. Bichinhos laboriosos? - soa-me bem, mas será tão longe do sentido como "irrequietos"? Talvez seja melhor. Que achas?
Lutz, Vai sair "irrequietos" e entrar "engenhosos". "Engenhosos" está bem para a minha traição.
No entanto, em inglês, além de "resourceful", encontrei também "knowing". Não penso nada sobre isto, não consigo.
Mas a busca trouxe outros resultado: agora penso que foi uma coincidência feliz ter usado a ideia de "traição" não só, como habitualmente, por estar a traduzir, mas também por estar a fazer muito mais que isso, uma atrevida divagação sobre uma coisa posta pelo Rilke. O que eu não sabia ainda, logo quando fiz o primeiro post, era que estava a meter-me com o diabo. É que, com Celan, (recordo-me do teu post) aparentemente Rilke é um cume de dificuldades de tradução.
Sobre a frase inicial "Wer, wenn ich schriee, hörte mich denn aus der Engel / Ordnungen?" encontrei (http://www.weirdgrrl.ca/guides/rilke.htm) isto:
Consider the opening lines of the first of the Duino Elegies: "Wer, wenn ich schriee, hörte mich denn aus der Engel / Ordnungen?" While the story of Rilke hearing this question ring out in the gale on the stormy cliffs of Duino is well known (recounted consistently in the Preface of every edition), we have to rely on the translators for what came next. And, like the conflicting stories of eyewitnesses, none seem to agree. The crystalline voice that Rilke supposedly heard has been shattered into more than twenty English language translations. Who, if he cried out, could be heard among this clamor?
"Who, if I cried, would hear me among the angelic / orders?" (both Leishman and Snow went with this translation of the first line)
"Who, if I cried out, would hear me among the angelic / hierarchies?" (both Albert Ernest Flemming and Mitchell opted to start with this version; Flemming's translation of The First Elegy is my personal favorite)
"Who, if I cried out, would heed me / amid the host of the Angels?" (Harry Behn)
"Who of the angelic hosts would hear / me, even if I cried out?" (Elaine E. Boney)
"WHO, if I cried out, might hear me-- / among the ranked Angels?" (Stephen Cohn)
"If I cried out / who would hear me up there / among the angelic orders?" (David Young)
"Who, if I cried, would hear me among the Dominions / of Angels?" (William Gass)
Pois é. Traímos então. Nunca me atrevi tentar uma tradução de Rilke, pois falta-me, para além do mais, a musicalidade necessária. No caso de Celan perdo boa parte dos sentidos por causa da múltipla semântica de quas todas as sílabas, mas o que resta, embora muitissimo mais pobre, ainda é legível.
Outra coisa: a ilustração deste post lembra me o "Mann von Tollund" . Já ouviste falar dele?
Não conhecia o homem de Tollund. Obrigada. Também acho que a expressão facial da "minha cabeça" replica a do homem de Tollund. Será que o completo abandono que se reflecte na expressão de ambos é o traço (anímico) comum? Como se incompatível com a morte.
Não me apetece fazer um post com a imagem do homem de Tollund. Talvez seja na morte que está o meu último resíduo de sagrado. Se fizesse, no entanto, iria - por uma vez sem repetição - eximir-me a qualquer traição. Faria um link para esta página: http://www.pbs.org/wgbh/nova/bog/toll-heaney.html
Porque a simples enunciação oral das palavras de um poeta já o atraiçoam.
De volta à inevitabilidade da traição: as palavras de um poeta lidas na minha cabeça são mais cheias que as palavras ditas por ele próprio. A voz de um poeta dizendo-se a si próprio é um mistério ainda mais denso.
7 comentários:
Uma das tiras preferidas deste grande poema, também dos preferidos meus.
Mas acho que "irrequieto" não é a melhor tradução de "findig", o inglês "resourceful" parece-me melhor.
Belíssimo poema, sem dúvida.
Lutz,pois, também não me parece muito bem.
À letra, "férteis em expedientes", segundo o Pauker, mas não me soa bem. Muito comprido, mau som.
Bichinhos expeditos? Parecem-me tecnoráticos de mais. O som é melhor.
Bichinhos laboriosos? - soa-me bem, mas será tão longe do sentido como "irrequietos"? Talvez seja melhor.
Que achas?
P.R., talvez ainda volte a trair.
Engenhoso?
Está bastante certo no sentido lato, mas infelizmente rotundamente errado no sentido literal.
Lutz,
Vai sair "irrequietos" e entrar "engenhosos". "Engenhosos" está bem para a minha traição.
No entanto, em inglês, além de "resourceful", encontrei também "knowing". Não penso nada sobre isto, não consigo.
Mas a busca trouxe outros resultado: agora penso que foi uma coincidência feliz ter usado a ideia de "traição" não só, como habitualmente, por estar a traduzir, mas também por estar a fazer muito mais que isso, uma atrevida divagação sobre uma coisa posta pelo Rilke. O que eu não sabia ainda, logo quando fiz o primeiro post, era que estava a meter-me com o diabo. É que, com Celan, (recordo-me do teu post) aparentemente Rilke é um cume de dificuldades de tradução.
Sobre a frase inicial "Wer, wenn ich schriee, hörte mich denn aus der Engel / Ordnungen?" encontrei (http://www.weirdgrrl.ca/guides/rilke.htm) isto:
Consider the opening lines of the first of the Duino Elegies: "Wer, wenn ich schriee, hörte mich denn aus der Engel / Ordnungen?" While the story of Rilke hearing this question ring out in the gale on the stormy cliffs of Duino is well known (recounted consistently in the Preface of every edition), we have to rely on the translators for what came next. And, like the conflicting stories of eyewitnesses, none seem to agree. The crystalline voice that Rilke supposedly heard has been shattered into more than twenty English language translations. Who, if he cried out, could be heard among this clamor?
"Who, if I cried, would hear me among the angelic / orders?" (both Leishman and Snow went with this translation of the first line)
"Who, if I cried out, would hear me among the angelic / hierarchies?" (both Albert Ernest Flemming and Mitchell opted to start with this version; Flemming's translation of The First Elegy is my personal favorite)
"Who, if I cried out, would heed me / amid the host of the Angels?" (Harry Behn)
"Who of the angelic hosts would hear / me, even if I cried out?" (Elaine E. Boney)
"WHO, if I cried out, might hear me-- / among the ranked Angels?" (Stephen Cohn)
"If I cried out / who would hear me up there / among the angelic orders?" (David Young)
"Who, if I cried, would hear me among the Dominions / of Angels?" (William Gass)
Que me resta senão trair?
Pois é. Traímos então.
Nunca me atrevi tentar uma tradução de Rilke, pois falta-me, para além do mais, a musicalidade necessária. No caso de Celan perdo boa parte dos sentidos por causa da múltipla semântica de quas todas as sílabas, mas o que resta, embora muitissimo mais pobre, ainda é legível.
Outra coisa: a ilustração deste post lembra me o "Mann von Tollund" . Já ouviste falar dele?
http://de.wikipedia.org/wiki/Tollund-Mann
Não conhecia o homem de Tollund. Obrigada.
Também acho que a expressão facial da "minha cabeça" replica a do homem de Tollund.
Será que o completo abandono que se reflecte na expressão de ambos é o traço (anímico) comum? Como se incompatível com a morte.
Não me apetece fazer um post com a imagem do homem de Tollund. Talvez seja na morte que está o meu último resíduo de sagrado.
Se fizesse, no entanto, iria - por uma vez sem repetição - eximir-me a qualquer traição.
Faria um link para esta página:
http://www.pbs.org/wgbh/nova/bog/toll-heaney.html
Porque a simples enunciação oral das palavras de um poeta já o atraiçoam.
De volta à inevitabilidade da traição: as palavras de um poeta lidas na minha cabeça são mais cheias que as palavras ditas por ele próprio. A voz de um poeta dizendo-se a si próprio é um mistério ainda mais denso.
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