Leio pelos jornais que vêm aí grandes restrições à invocação de pretensos benefícios para a saúde na publicidade a bens alimentares. Da mais remota infância trago comigo a frase an apple a day keeps doctor away, em continuidade com outras do tipo vão lavar as mãos para ir para a mesa, todas materializadas no mesmo tom inspirador de confiança quanto à existência de ordem no universo e de um sentido para a vida.
O passar dos anos tem sido benéfico para a ideia de lavar as mãos. Ultimamente até fiquei a saber que é um modo de evitar a gripe.
A apologia da maçã é que sempre me ficou mal digerida.
Tão antiga quase como a memória da frase é a suspeita, alimentada em pensamentos até hoje inconfessados, de que há qualquer coisa de errado com a apologia da maçã diária, ou então com as maçãs, ou então com a consistência de várias mensagens que andam por aí tecendo as nossas ideias. Tudo isto, aliás, reforça a descoberta que venho fazendo, de que os adultos da minha infância eram uns mestres na batota, ainda que tão sinceramente que chegassem a acreditar nela... you know.... Adiante.
Dizia que há qualquer coisa errada com a apologia da maçã. É que, efectivamente, não se pode pretender em simultâneo - sem quebra da eficácia orientadora do imaginário - que as maçãs são esconjuradoras do mal, como na frase, e que a história do nosso mal tem na sua origem uma maçã. Agora talvez tudo isto esteja a modificar-se.
Talvez no futuro, por remoto efeito da rigorosa acção da Comissão europeia em matéria de alegações de benefícios dos alimentos, as mães deixem de transmitir levianamente às filhas que é preciso comer maçãs todos os dias. Mas ainda ficará o fruto-proibido, afinal permitido.
An apple one day, and Eden went away... , isso sim. Ainda se fossem morangos...
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