6.11.07

O labor e os meninos

Joe Biel, Whip. 2006

Da mesma maneira que temos para os adultos deste mundo laborioso as (pseudo) virtudes da glorificação do labor, temos para os meninos a quarentena ortopediátrica da escolinha penteada, controlada e geométrica. O que apenas à primeira vista pode ser confundido com uma fantasia sobre a infância perfeita, ou pelo menos, suportável. Não o é, é um programa político sobre o indivíduo, que não é de todo ineficaz.

Se é verdade que, por um lado, nem a mortificação pela via chã consegue manter-nos eficientemente brutos e insomnes, ao ponto de não suspeitarmos, sequer uma vez, que é na libertação das mãos e das penas da existência que se rasga a invenção do ser (esse órgão pelo qual sorrimos ou choramos, mas também criamos, descobrimos e inventamos), por outro lado a ortopedia dos meninos não deixa de apresentar os seus resultados.


É que, para o fim a que se destina, o sistema é adequado para 90% da população.
Descontem-se uns 15% de tresmalho para os que não resistem ao tratamento (contamos já com instituições ou fármacos para lhes acudir, o Luís bem sabe o nome deles todos, fármacos e instituições), e teremos direitinha e alinhada a força necessária para uma labutatividade maioritária sem fricções, capaz mesmo de produzir relevante poupança na dispensa das máquinas de picar ponto e de reproduzir-se quase funcionalmente.


Pontificarão neste caso, claro, os 10% omissos.
Num certo sentido, estão fora do sistema educativo, e nenhum mal haverá em proporcionar-lhes todas as larguezas da skhole, pelo contrário. Tem sido assim, não tem?! Quanto mais diferenças estatutárias entre os indivíduos (ainda que off the record), mais despudorada é a variação na sorte dos meninos.


Moral da história: o homo laborans contemporâneo assenta na educação e começa por ser um pepino pequenino. E assim, cada vez que falamos destas coisas educantes não é, de facto, de meninos que falamos.
Falamos é do indivíduo de referência, de um hipotético indipepino laborans. Ou não.


Já tinha passado aqui duas vezes perto deste assunto. Agora uma passagem pelo bl_g__x_st_ , em diferentes posts (aqui e aqui), com os quais convirjo no essencial, trouxe-me de novo o assunto à baila. Sendo o tema quase tão sério quanto o dogging, a que dedicámos post por genuíno sentido de serviço público, fica aqui o rememorete de ambos os casos a partir de uma citação desse texto.


"A volta que a palavra deu é quase tão perversa como a volta que deu a palavra que hoje denomina essa quarentena ortopediátrica que é a escola, que de actividade liberta das servilidades da sobrevivência, de tempo de expansão do que de melhor houvesse em nós, passou ao seu contrário, com pais e professores desorientados a xingar gente pequena cada vez mais estarrecida... (há aí no fundo do baú, repetindo-a aqui, uma cronologia dessa perversa cambalhota narrada em língua exótica mas suficientemente decifrável para diligentes agnósticos-on-line). "

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