Dois aspectos no debate da SIC entre os senhores candidatos Alegre e Silva - que foi molengo, soporífero e sem história quanto ao mais - captaram a minha atenção: as palavras que traziam estudadas e a questão portuguesinha do título. Este último é o que ficou para a memória.
Quanto ao primeiro aspecto: os senhores candidatos tiveram palavras pouco frescas, direi mesmo serôdias, que surgiram em cruzadas guirlandas, de umas pirracinhas inócuas no campo lexical um do outro. De Alegre ouviu-se sobre "a tecnologia e essas coisas" e de Silva ouviram-se também algumas sílabas em equilíbrio sobre a "cultura e essas coisas". Com esta moderação e ampla generalidade ficou feita a festa da foice em seara alheia. Nenhum desafiou a irritação do outro, cada um deixou o outro dizer as suas palavras-de-casa. Fiquei a saber que ambos podiam alinhavar sobre "essas coisas" cuja falta de conhecimento lhes é criticada. Foi como se concluísse "olha olha ele fala".
E passo à questão do título. Terrível foi o momento em que ouvi o candidato Silva chamar "senhor deputado" ao candidato Alegre. E este sem pestanejar. Ou quando o jornalista lhe chamou, ao mesmo candidato Alegre, "senhor dr". E este sem pestanejar.
Talvez o jornalista não saiba, mas tanto o candidato Alegre como o candidato Silva sabem que o candidato Alegre não é "licenciado" - estudou Direito em Coimbra, mas não concluiu o curso - e, portanto, de acordo com esse uso de doutorizar licenciados, não devia ser assim titulado.
Ora, sabendo isto muito bem, vai o candidato Silva e deputa o candidato Alegre. Arranha o ouvido: um deputado candidato presidencial.
Ficam ali os dois entendidos: um, o nosso candidato Alegre, à boleia de não ter, perante o povo elegante, o mínimo de importância ser ou não ser licenciado em qualquer burrologia aplicada ou fundamental, assim se deixando doutorizar pelo jornalista, sem um tremor na pálpebra que fosse, assim se alindando para o povão que sabe que ser alguém é ser dôtor; o outro, o nosso candidato Silva pagando taxa moderadora de conveniente verdade, usando um título absurdo e quase caricato (senhor deputado... candidato presidencial), sempre em posição educadinha, e quem sabe até que ponto malévola, ou simplesmente timorata, antecipada desistência de lidar com o incidente que pela certa se faria se chamasse "senhor" ao senhor candidato Alegre perante as câmaras e o país.
No fim, achei que nada do que se tinha ali passado entre o senhor deputado candidato, ou senhor dr. Porque Não, e o senhor Professor, nada daquilo podia ser tomado por uma coisa séria. Foi como se estivessem conversados. Não foi honesto. Foi uma falsidade cúmplice em directo.
1 comentário:
Concordo, uma esterilidade clinica. Uma coisa angustiante. ezequiel
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