8.12.05

Tu quoque, JPP. Paradoxos de uma leitura diagonal à direita observados à esquerda por uma leitora munida de dispositivo de bolso



Mas também é certo que o artigo diz logo de seguida "Nothing was ever proven," the biography added.

No entanto, para levar até ao fim a história do senhor Seigenthaler, é mesmo necessário chegar ao fim da segunda página do artigo:

Nada de novo, portanto, quanto às conclusões apresentadas pelo senhor Seigenthaler. Assim, ao contrário do destaque negativista de JPP, esta informação no final do artigo quase permitiria falar em happy end relativamente à susceptibilidade de rectificação de imprecisões na Wikipédia!

Conclusão interlocutória: JPP fez uma leitura rápida e incompleta do artigo do NYTimes que contava a história do senhor Seigenthaler e contou apenas metade desta história, uma vez que a história inteira requereria que se fizesse menção à correcção introduzida, bem como ao facto de também esta estar destinada à multiplicação de destinatários através da Internet.


Posso basear-me nisto para dizer que o Abrupto é uma perigosa fonte de distorção do que vem escrito no NYTimes e, assim, lançar sinais de cautela para que não se leia o que JPP por impulso "generoso, bem avontadado e ingénuo" se dá ao trabalho de partilhar connosco no seu blogue?

Estarei legitimada, por uma vez, a apontar ao Abrupto este "tu quoque"?

A minha nada hesitante resposta é "não". Não posso aplicar ao Abrupto que, à escala, seguramente notável, de um indivíduo faz o mesmo que a Wikipédia faz, o que JPP ali diz a propósito da Wikipédia, dissolvendo assim em cáustico cepticismo o interesse de um e da outra.
Não posso fazê-lo porque, para além da falta de interesse do argumento, concordo com a mensagem que ocupa a segunda parte do artigo do NYT (transcrita também abaixo*) onde encontro vazado um sentido totalmente discrepante com o que resulta da leitura do post do Abrupto.
No artigo, além de se louvarem vantagens da Wikipédia, também se recorda que muito do problema suscitado pela infeliz história do senhor Seigenhalter tem a ver com o discernimento dos próprios utilizadores sobre o valor a dar à informação obtida ali, e eu diria, na Internet em geral. Menciona-se aí mesmo o essencial dispositivo de bolso (rule of thumb) para lidar com a Wikipédia: considerá-la apenas uma possível fonte e reconfirmar tudo. No fundo, trata-se de repetir a ideia inspiradora de pautas de avaliação da qualidade do conhecimento tão banais como a que nos prescreve que não baseemos trabalhos de investigação de neuroimunobiologia no que se lê no Readers' Digest ou a que genericamente adverte que nem tudo o que vem à rede é peixe. Nada de novo.
A conclusão que realmente me interessa é esta: é errada a ideia gratuita, benévola e ciberneticamente transmitida pelo Abrupto de que, segundo o NYTimes, a informação gratuitamente disponibilizada na Internet está condenada a não ter qualquer valor por força mesmo da natureza humana e das coisas em si.
Fosse eu de direita e teria lido o post do Abrupto sem sentir qualquer espécie de dissonância ou sobressalto. Acreditando que os bem avontadados ou são trouxas, por constituição ou deformação, ou são simplesmente mentirosos encartados, veria confirmado apenas que a "natureza humana" é "infelizmente" "assim".
Fosse eu de direita, tivesse ido ler o artigo do NYTimes sobre a desconfortabilíssima experiência do senhor Seigenthaler e essa leitura acontecesse no meio do lufa-lufa quotidiano, provavelmente não iria até ao fim do artigo e aforraria rapidamente mais uns níqueis para o colchão do miserabilismo da condição humana.
A minha terceira e última conclusão do pequeno episódio é esta: a visão céptica da natureza humana (conceito cujo conteúdo, aliás, constitui segredo fechado a sete chaves!) é particularmente conveniente à construção do programa económica e politicamente conservador, que goza, aliás, de excelente optimismo quanto ao mais.
*Jessica Baumgart, a news researcher at Harvard University, wrote that there were librarians voluntarily working behind the scenes to check information on Wikipedia. "But, honestly," she added, "in some ways, we're just as fallible as everyone else in some areas because our own knowledge is limited and we can't possibly fact-check everything."
In an interview, she said that her rule of thumb was to double-check everything and to consider Wikipedia as only one source.
"Instead of figuring out how to 'fix' Wikipedia - something that cannot be done to our satisfaction," wrote Derek Willis, a research database manager at The Washington Post, who was speaking for himself and not The Post, "we should focus our energies on educating the Wikipedia users among our colleagues."
Some cyberexperts said Wikipedia already had a good system of checks and balances. Lawrence Lessig, a law professor at Stanford and an expert in the laws of cyberspace, said that contrary to popular belief, true defamation was easily pursued through the courts because almost everything on the Internet was traceable and subpoenas were not that hard to obtain. (For real anonymity, he advised, use a pay phone.)
"People will be defamed," he said. "But that's the way free speech is. Think about the gossip world. It spreads. There's no way to correct it, period. Wikipedia is not immune from that kind of maliciousness, but it is, relative to other features of life, more easily corrected."
Indeed, Esther Dyson, editor of Release 1.0 and a longtime Internet analyst, said Wikipedia may, in that sense, be better than real life.
"The Internet has done a lot more for truth by making things easier to discuss," she said. "Transparency and sunlight are better than a single point of view that can't be questioned."
Nota adicional: recomendo, em contrapartida, este post da Linha dos Nodos

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