23.1.06

Nem vitória estrondosa, nem chumbo maciço.

Cavaco Silva e os seus apoiantes festejam e têm motivos para isso porque ganharam. A esquerda perdeu. Que a vitória não foi ribombante, já se sabe (hoje no Público consta 50,59%, a taxa de abstenção vai pelos 37,39%). Em qualquer caso, foi uma vitória. Que não foi estrondosa. Tal como o chumbo da esquerda não foi maciço.
Efectivamente, considerando que a candidatura de Cavaco Silva se tratou da única candidatura da oposição (não o eram nem a candidatura de Alegre, pelo berço ideológico, nem as de Jerónimo e Louçã, pela posição no espectro das tendências), que ainda por cima se centrou num candidato de tipo impoluto fazendo promessas ortopolíticas e, com frequência, enfatizadas à esquerda com promessas de prosperidade e honra em tempos marcados por angústia social, aumentos dos preços, descida dos benefícios e algum miserabilismo nacional, considerando também que o espaço político de apoio a essa candidatura foi o da direita toda inteira (una e individida) e que a candidatura beneficiava, desde o início, de um etos triunfante - considerando, pois, tudo isto - sou levada a concluir que Portugal continua a ser um país maioritariamente situado à esquerda.
A não ser, claro, que uma acentuação do discurso de direita na candidatura de Cavaco Silva tivesse conseguido sensibilizar essa faixa escura da abstenção, revelando o verdadeiro sentido das suas inclinações políticas. Não creio, no entanto, pensando nos abstencionistas que conheço (e sobretudo, pensando na natureza dos argumentos que utilizei para os mover e que não produziram qualquer efeito) que nessa faixa abstencionista resida um núcleo puro e duro de um Portugal de direita desconhecido.
No entanto, a conclusão de que Portugal continua a ser um país maioritariamente situado à esquerda é a que conduz a apreciações mais severas para os partidos de esquerda, principalmente para o PS, em particular quanto à capacidade de sensibilizar e de mobilizar a comunidade para desígnios conjuntos.
Mas não relaciono com isto, pelo menos significativamente, os resultados de Manuel Alegre. O voto em Manuel Alegre foi seguramente um teste ao carisma de Sócrates, ao PS de Sócrates, que não correu muito bem, mas foi ainda um voto materialmente socialista - o que mostra que a nupcialidade do PS com o eleitorado não se encontra em fase francamente crítica, já que ela é composta, pelo menos, pela soma das candidaturas de Alegre e Soares (acrescento a taxa negativa da posição no governo).
Por outro lado, a candidatura de Mário Soares era tão intensamente marcada pelo carácter inusitado e desconcertante das suas circunstâncias pessoais, o que requereria, de facto, um tempo de aceitação e adesão superior ao que aconteceu (para além, claro, da eventual dificuldade suscitada pela questão monárquica), que a deslocação do voto para Manuel Alegre tem, a meu ver, muito pouco significado. Quase apetece dizer que bastava estar ali colocado e estender os braços para recolher os votos e que a empenhadíssima campanha teria sido apenas e sobretudo para dizer que estava ali alguém.
Assim, quanto ao PS não creio que tenha havido "um cartão amarelo", nem quanto a Cavaco Silva se pode dizer que o país o recebeu de braços abertos.
Em termos de afirmação individual, entendo que o vencedor, porque o que palmilhou mais espaço, foi Jerónimo de Sousa. O facto de assim ser é um contributo importante para a democracia, que só tem a ganhar com a credibilidade dos seus agentes. Ademais, a direita trauliteira não merece que lhe dêem de borla cromos castiços à esquerda. A aristocracia de Jerónimo é água pura, sombra fresca, pensando nos maneirismos benzocas ou grunhificados da direita corrente.
De Louçã só direi que entendo que fez bem o que tinha a fazer e que me apraz ter visto que conseguiu evitar a grandiosidade do mártir quase até ao fim, até ao discurso terminal.

7 comentários:

Carlos Indico disse...

Sou assim, não há volta a dar:
-Não me conformo por Cavaco ter ganho por UM DIA, não me conformo;
- Não me piro, por falta de cabedais, e porque se calhar não vale a pena. Pode ser que o compére dê uma boas rábulas;
- E só petisquei o bacalhau, e bebi três tristes uisques;
- Não vou Jamais esquecer o dia 22do01de05 , e quem me conhece sabe a minha incapacidade para recordar datas;
- Não me sai da cabeça a imagem de dezenas de Gajos a babarem-se abundantemente recordando os bons velhos tempos.
- Tudo isto é triste.

Rita Dantas disse...

Pode ser o optimismo, mas eu acho que o resultado do Alegre é bastante mais. Vi muita gente que já estava demasiado desiludida com tudo, e especialmente com os partidos, ficar de repente mais entusiasmada (se rightly so ou nao é outra questao).
E mesmo naqueles que o fizeram de dentro da esfera tradicional do PS fazem-no com um entender muito mais saudável da vida partidária...

arnoldtaft3083 disse...

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Anónimo disse...

Mas o Louçã ganhou, não foi?
O discurso dele parecia o de um vencedor (e acabou com os punhos erguidos típicos do BloK).



E não foi uma vitória estrondosa?
À primeira volta, contra 5 adversários?

André Carapinha disse...

Excelente texto, Susana. Apenas tenho ao objectar dois pontos: 1- O voto em Alegre não se deve identificar com o "voto socialista"; certamente que muitos votantes o eram, mas muitos outros votaram por simpatia com a figura, descontentamento com o sistema de pattidos, ou simplesmente pelo voto útil. 2- Concordo que a esquerda tem mais votos fidelizados que a direita. Mas aquilo que faz a diferença é o "centro"; o centro que votou Sòcrates votou, desta vez, Cavaco.

Susana Bês disse...

Carlos Indico: espero que passados dois dias, isso já esteja mais suavizado. Cavaco Silva é um político conservador e terá uma personalidade pouco cativante mas, para "homem dA direita" podia ser muito muito pior.

Anónimo: eu não faço a conta dessa maneira. Cavaco não foi - ou aliás, bem vistas as coisas, foi! - um "mato sete de uma vez". Ele não estava contra quatro (ou cinco); estava contra quatro/quartos ou cinco/quintos.

Rita Dantas e
André Carapinha: não acredito que Alegre tenha a mínima hipótese fora do PS, com uma excepção bem definida que seria a de um "movimento de cidadania", uma "associação cívica e patriota" mas isto tudo a convergir para uma tendência dentro ou em torno ou em convergência com o PS.
A candidatura de Alegre não foi uma candidatura "contra os partidos"; a crítica aos partidos, se a há, seria no sentido do seu aperfeiçoamento, da sua missão. Não me parece que se trate da desilusão com os partidos mas da desilusão com o modo como os partidos estão. A mensagem de Alegre é não antipartidária.

Sobre os resultados de Alegre: eu aceitaria sem hesitações num outro contexto que o voto em Alegre não é só o voto socialista. Neste contexto em que Cavaco Silva foi tão cuidadoso em não se identificar com o PSD (estando o eleitorado PSD já no papo) e em criar uma ilusão de discurso de esquerda (no bombyx mori há um teste a este respeito, um ou dois dias antes das eleições), creio que Cavaco consumiu todos os votos desde a direita até ao voto socialista. Para Alegre não sobraria mais espaço que o voto socialista.

André, ainda, obrigada pela apreciação. Quase fiquei desconfortável porque pensei o mesmo do post que tinha lido esta manhã no 2+2=5 mas afinal tinha acabado por não dizer lá nada.

Carlos Indico disse...

Também podia ter partido duas pernas e parti só uma.
Ao longo do tempo fui-me libertando de aquilo que há falta de melhor qualificação, chamo Fixações.Até dos Lampiões me libertei.Mas de Fujões não.
E ainda por cima Pedante.
Vamos passar vergonhas.