2.11.07

Coisas minoritárias

Um destes dias dei comigo numa reunião multilingual. Entre a veleidade portuguesinha de perceber, mais ou menos às apalpadelas, o que os diversos intervenientes iam dizendo e a necessidade, própria de quem é oriunda de um país situado no degrau trinta e picos do índice de desenvolvimento humano, de ouvir exactamente o que estavam a dizer, aplicando os auscultadores, ainda tive tempo para reparar que havia à minha volta uma fartura tal de circunstantes masculinos que, à primeira vista, aquilo poderia ser uma fase pós-catarse e muito pré-festiva da revolta na bounty.



Em vez de me alegrar com tamanha largueza, saracoteando um charminho sonhador para aqui e outro para acoli, estremeci com o mais puro e gelado respeitinho a fazer-me a espinha. Devia ser importante, caramba, aquela assembleia!



Não me perguntei - apesar de a pergunta ser uma boa pergunta - onde estavam as mulheres. Comentei só, como disse, que aquilo devia ser, caramba, uma coisa importante.



Três ou quatro semanas antes eu tinha estado numa outra reunião, de uma diferente assembleia. Aí tratava-se de um assunto de mera participação cívica. Havia um homem, que presidia. E o resto eram mulheres. Muitas delas eram daquele tipo muito assustador que se bate contra a exploração sexual da mulher, perante quem começo sempre por sentir-me gravemente acometida de amoralidade (após o desgosto inicial, acabo por confortar-me pensando no trabalho que me dá assim ser). Lembro-me de ter pensado: está visto que isto não é um assunto importante. O assunto, esclareço, não era a exploração sexual da mulher, era uma coisa sem género, coisas de civismo. Não importante.



Ontem ouvi um senhor importante dizer na televisão que, no quadro das negociações entre a Europa e a África, o rapto das crianças do Chade não era uma coisa importante. Com a imagem dos miúdos ainda na retina, achei que a pergunta adequada, perante isto, só poderia ser: onde está o Wally?


Dividimos muito as opiniões e as pessoas consoante o que dizem sobre os assunto; é um erro, nestes tempos de informação tão larga e tão móvel.
É muito mais relevante fazer a distinção com base no critério do por que se pensa isto ou aquilo sobre um assunto. A única desvantagem deste critério - matemáticos, não tentem aqui fazer contas! - é que uma pessoa acaba por concluir vezes demais que está em minoria.
A história do indivíduo que o colectivo oprime é sempre piedosa, na boca do colectivo.

1 comentário:

jj.amarante disse...
Este comentário foi removido pelo autor.