15.11.07

Desordens democráticas

James Lee Byars, Pink silk object. 1969

A tolerância que vamos tendo com as ordens profissionais é um bom exemplo da nossa capacidade de jogar com uma lógica dupla, esquecendo pontualmente aquilo que no geral afirmamos como princípio.

No caso, talvez este fenómeno não esteja apenas baseado nas fascinantes habilidades do nosso cérebro, sobretudo quando se intoxica com o hábito. Talvez o fenómeno conte com um apoio significativo por parte do que estamos dispostos a tomar como "realidade".

É que nenhum outro grupo social - com excepção talvez da classe dos betos - ostenta com tanta inocência essa convicta e convincente atitude de se estar conformado com o facto de se ser portador de um status que conta como poder legítimo. Os bastonários, mesmo os que até poderia achar indivíduos razoáveis e simpáticos, parecem-me sempre falar sob o efeito consagrador de uma coroa simbólica em periclitante equilíbrio no topo do cocuruto.
Em alguns momentos em que a menina que às vezes ainda me habita não está a dormir, não está sedada, julgo até perceber que essa coroa de papel é o seu único atavio.

De guildas a nichos de resistência a uma sociedade que postula como princípio que o status e o poder não hão-de fertilizar-se reciprocamente, as ordens são, talvez mais mesmo que uma desordem, uma falha profunda no solo democrático...
Outra coisa não resulta do pitoresco código deontológico da ordem dos médicos e da sua condenação da IVG.

1 comentário:

blue disse...

concordo.