Leio uma frase arrepelante, atribuída a Lobo Antunes, no Esplanar: esquecer uma mulher inteligente custa um número incalculável de mulheres estúpidas.
Identifico quatro motivos para a perturbação que a frase me causa.
Desde logo, perturba-me a frieza da operação aritmética que apresenta como resto o amontoado das mulheres estúpidas abatidas ao longo do processo do esquecimento, num desperdício de vida, de cabelos, de pernas. É esse custo, o desbaratar de recursos, que conta também com brincos, pochettes, talhes de anca, curvas de pescoço, timbres e, enfim, tudo o mais que corporiza a matéria das mulheres em desfile - e não a sua condição descartável - o que começa por me impressionar. Em matéria de agrados, estar em posição de criatura para abater é situação corriqueira; ser cascalho vulgar, e não a gema de alguém, é comum. O desmando multiplicador destes abates é o que estranho.
Para além disso - e este é o título segundo do abalo - estremeço sempre em presença desta expressão quando apresentada por voz masculina, especialmente se dita a propósito de uma terceira pessoa: "mulher inteligente". Oiço "mulher (e) inteligente", o que é um superlativo de qualidades, próprias de um ser de excepção que superabunda excelência no porte e no exercício da feminilidade, com resultados incendiários na convocação dos deleites. Dito assim, é como se ouvisse dizer de alguém que exerce com inteligência a feminilidade e ainda lhe sobra inteligência para ser inteligente em registo normal. Alguém bafejado amigavelmente pelos deuses. Uma deusa, já tenho ouvido. O estremecimento, neste sentido segundo, é o que acontece quando se toma conhecimento da existência de criaturas de tão elevada estirpe.
Um terceiro motivo para a instabilidade humoral que a frase me provoca, achando eu que compreendo o descarnamento de alma que advém a quem tenha de lançar-se a esquecer uma "mulher inteligente" como a da frase, acontece ao sentir-me esbarrar contra um muro-mordaça, que se levanta para me impedir de referir com simetria, ou simplesmente com propriedade, o contraponto masculino de um exercício de esquecimento como o da frase de Lobo Antunes. Como é que eu digo?! "Esquecer um homem inteligente custa um número incalculável de homens estúpidos"? De maneira nenhuma. Ninguém vai curar dores junto de homens estúpidos, são os inteligentes que são bons nisso. Esses e mais nenhuns. Poderia ainda tentar-se desta maneira: "Esquecer um homem bonito custa um número incalculável de horas de homens inteligentes". Mas esta formulação também não serve. Ninguém em seu perfeito juízo vai ficar nesse estado de devastação por causa de um "homem bonito" (no mínimo, terá de lhe ser reconhecida, natural ou artificialmente, qualquer outra qualidade). Depois de muitas voltas pelo leque dos atributos, parece-me que o contraponto masculino para a "mulher inteligente" na frase em questão é muito provavelmente o "homem meigo". Este será, creio, a personagem capaz de conduzir ao pináculo das dores da ausência e de arrastar qualquer heroína sentimental pelas asperezas do caminho do esquecimento.
Acontece, porém, que um "homem meigo" não o é em si; a expressão "homem meigo" é a abreviatura de uma fórmula que descreve um longo e complexo processo mental. Trata-se, na verdade, de uma expressão ligeira que explicita um ponto de vista da destinatária das meiguices. Não se pense, pois, que um "homem meigo" é, simplesmente, um homem dado à meiguice; não é! Em vez disso, é um homem que executa bem meiguices que alegremente se perspectiva receber, ou continuar a receber, no caso de ele já as ter iniciado. Como se vê, não se tratará de molenguices, como é próprio dos homens que, em vez de meigos, são delicodoces, nem de concupiscências desinteressantes, como acontece com os homens dados a desinspiradas vontades.
Ficando demonstrado que a "meiguice" está longe de ser uma característica intrínseca dos cavalheiros dados como "meigos", bem se vê que a frase de Lobo Antunes não tem realmente jeito de ser pronunciada por uma mulher em prol de um homem. Esta impossibilidade de lograr a expressão através daquela frase é a terceira razão pela qual ela me perturba; e, para que conste, não é ligeiro o tremor que isto me causa.
O quarto e - apesar de tudo o que foi dito - principal motivo porque me sinto estremecer perante a frase é que ela trata despudoradamente da longa devastação da im-presença, da erosão mais e mais do que já fracturado há-de ainda ser exposto às intempéries, da ecolalia da ausência, do número incalculável de episódios que têm de replicar o-que-não-está até que a im-presença se esbata e deixe, finalmente, de estar.
7 comentários:
Ssssussssannnaaa, apanhei-te!
Little sister is watching you!!!
(Adorei a ideia de que esquecer um homem bonito pode levar muitas horas de homens inteligentes!!! Ih ih ih....)
A benzon
Rrrr
la marraine doesn't mind being watched pela afilliée e dispensa-lhe a benzom
Cara Susana,
Eu cá não me preocupava muito com as boutades do Lobo Antunes. A verdade é que, homens ou mulheres, estupidas/os ou inteligentes, nunca os esquecemos. Essa é que é essa!
Esqueci-me de escrever os meus parabéns pelo post. 1 abraço
Junto me ao comentário do aa.
Estão todos a trabalhar na Folha de Cálculo, nome pomposo porque tudo é automático.
Neste silêncio de teclagem geral, eu li e estou-me a gargalhar intímamente. Maningue kanimanbo.
Gostei de descobrir este blog. Parabéns pela forma como escreves.
Sofia
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