18.1.06

Da virtude no casamento

Vamos lá a ver se percebi bem a Educadora. Não era exactamente por esta e por outras que tais que foi botado o sapientíssimo aforismo de David Mourão-Ferreira: uma pessoa casada, só com outra pessoa casada?

8 comentários:

Tiago Mendes disse...

"uma pessoa casada, só com outra pessoa casada?"

Nao vejo grande sapiencia nesse dito... quanto muito, um ar "querido", que certamente DMF tinha [dizia-me a minha mae que foi sua aluna que ele era apaixonante - todas o achavam], nesse "wishful thinking" romanticizado. Aquele texto e' muito bom, mas custa-me a acreditar que as mulheres consigam de facto entender aquilo.

["entender" nao implica "aceitar"]

Tiago Mendes disse...

PS: o link para o texto tem qualquer coisa mal, acho que e' do titulo, que mudou...

Susana Bês disse...

Tiago, já actualizei o link, obrigada pela dica que me passaria despercebida.
Agora, indo ao que interessa:
O dito não é nada "querido"! Conheço-o dessa espécie de manual da infidelidade chamado "Um amor feliz", que creio ser o único romance de DMF. E, sem bem me lembro, quem o pronuncia é até uma mulher.
O dito não é "wishful thinking" romantizado, também.
O que se pretende dizer com esse dito é que as pessoas casadas só devem ter "casos" com outras pessoas casadas. Isto é, se o Tiago é casado, deve procurar ter "affairs" com mulheres casadas e não, como no caso do texto linkado da "Educação Sentimental", com mulheres que sejam solteiras (em sentido lato). Não tenho a certeza de que a combinação "homem solteiro com mulher casada" conduza ao mesmo pungente desperdício de vida - até há pouco tempo pensei que não mas vi recentemente um texto escrito por um homem, que simultaneamente assistia a duas gravidezes sucessivas da sua amante casada,e achei que, sendo o caso, a coisa é capaz de ser igualmente desoladora.
A sabedoria do aforismo de DMF é a clareza com que refere a prudente "igualdade de armas". Está equilibrado tudo quando cada um dos amantes sabe que sábados, domingos e feriados são dias de absorção pela família de cada um. Resta-lhes, com quantidades de tempo e de liberdade muito equivalentes, o tempo dos dias úteis. ´


Estou de acordo de que o texto transcrito na Educação Sentimental é, de facto, esplêndido.´
Mas surpreende-me que diga que lhe custa a acreditar que as mulheres (sós) consigam "aceitar" aquilo. O texto está escrito, precisamente, a partir da perspectiva das mulheres, antes de mais. Mas apenas das mulheres sós que mantêm relações com homens casados.
Se esses homens (casados) tivessem como amantes mulheres casadas, tal como recomenda o aforismo do DMF, não haveria texto, não haveria história para contar. Não haveria aquele desperdício existencial delas. E, apesar de os homens casados não preferirem, em geral, as mulheres casadas (com outros), os que o fazem sabem também que, além da isenção da colaboração naquela galeria de horror descrita no texto, a preferência é ainda compensada com uma taxa de exigências muito mais comportável com as exigências da vida familiar deles.

mm disse...

Assino por baixo dos seus dois últimos parágrafos, Susana.

Filipe disse...

Se DMF fosse assim tão simples Tiago, não ofercia qualquer interesse.

Filipe disse...

sim, e as mulheres entendem, sim entendem além da percepção por nós alcançada

raúl disse...

O que é curioso é ter sido o DMF a escrever aquele aforismo, mesmo pondo-o na boca de uma personagem feminina. Curioso porque, enfim, o DMF no que toca a essa regra...

Susana Bês disse...

Raúl: Talvez a vida de DMF não seguisse o aforismo, mas o mesmo não se passa com o livro que mencionei.
O romance "Um amor feliz" anda à volta de um "affair" conforme ao aforismo: o narrador é casado, longamente casado, e a sua amante também. Ela, aliás, tem uma qualidade suplementar: é que não só é casada como tem o bom gosto de o ser com um diplomata estrangeiro. Por isso o amor deles (esse tipo específico de amor de que falamos) só podia mesmo ser "feliz". Gozava de condições excepcionais. Melhor que isso, impossível.