
Sendo hoje, domingo, dia de contemplação meditativa e não se tendo recebido a graça do arrebatamento indistinto (a Divina Safo que me perdoe e, se assim lhe aprouver, me inspire) haveria de ser aqui entoada loa à condição masculina no seu esplendoroso viço fenomenologicamente surpreeendida.
Mas não.
Hoje terá de ser diferente. Hoje o mulherio não vem aqui por ser douto e audaz (como já vieram a Anscombe, a Hipatia, a Hipparchia, a Teodora, et cetera), nem vem louvada a condição masculina por ser difícil e bela.
Hoje tenho de esclarecer, sob pena de continuar a ver-me de sono perturbado pela incomodidade de me manter silente, o que verdadeiramente acho que é "ser mulher".
Não percebo - ou talvez, discordo de - o que leva mentes atentas e reflexivas a procurar construir, subtraindo-o à largueza do horizonte, o mausoléu complexo, ataviado mesmo, do que é "ser mulher".
Eu digo-o em duas palavras e não podiam ser mais douradas: é "ser fêmea". Ponto.
Uma mulher é uma fêmea. É um indivíduo projectado para assim participar na nobre tarefa da reprodução.
O que é alguém encontrar-se "como mulher" fora da função de fêmea? Eu digo, no amplo espaço do ser, nada. Só o mausoléu da construção do género permite circunscrever na atmosfera o local desse lúgubre encontro.
Sou uma mulher, sou um indivíduo fêmea. Sinonímia.
E se não fosse fêmea, seria macho. De certo modo não sei existencialmente o que isso é. Da mesma maneira que não sei o que é a experiência de ser avó. Ou ser canhota. Ou ser cega. Ou pensar com palavras chinesas.
Tenho a experiência de existir e isto é o que partilho com os outros. Em círculos mais amplos ou menos amplos, enquanto bicho, enquanto humana, enquanto fêmea, enquanto europeia, peninsular, vagabunda.
É por isso que neste blogue a condição masculina receberá loas infinitas, por ser a forma apetecida da única razão pela qual se é fêmea, perdão, mulher.
É por isso também que neste blogue, que não se arrebata pela forma feminina, embora dela tenha orgulho, não se querem divas, não se querem beldades que não se possam degustar.
Exulta-se este domingo, em excepção, a unidade simples da fêmea, a forma e a função em viçosa sintonia. Ali em cima é a Vitória de Paionios. A ter que ter, a minha pátria são os meus seres.
3 comentários:
Não é todos os dias que sabemos de alguém que se encontra bem na sua pele.
Parabéns.
apeteceu-me gostar deste blogue. tenho destas, por vezes, simpatizo, sem bem saber porquê ( por acaso até sei, gostei de ver a atenção por este Portugal Maior que, como diz o Luís, talvez a 22 fique de um tamanho aceitável) por uma escrita. andei há procura de um post para o dizer. é este, escolhi diante da prosa forte e bem esgalhada.
Devia acrescentar no título do post: "e sou também uma sortuda, com visitas assim"!
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