5.1.06

Zelig, eu e Cavaco Silva

Deixei-me assistir a uma entrevista de semi-bisbilhotices a Cavaco Silva que procuraria apresentá-lo no seu habitat. A entrevista, razoavelmente atrapalhada na parte da produção, foi passeando Cavaco Silva pela entrada da Católica, no gabinete na Católica e pela casa de férias, cercanias incluídas. O homem mostrou-se de fato e depois vestido informalmente, e nestas vestes pareceu-me mirrado e indefeso.
Durante todo o tempo tentei não o olhar desfavoravelmente, tentei vê-lo de uma maneira que fizesse nascer em mim adesão - pelo gosto, talvez perverso, talvez ocioso, de sentir vibrar em mim qualquer coisa nova e estimulante tal como "sentir-me como" uma apoiante de Cavaco. A velha questão "o que é que se vê nele?" é uma coisa que requer a presença de um sujeito vidente, em que eu desejava alojar-me. Faltou-me o pé, ou o jeito, ou a concentração. Desconsegui, o que ficou claro ao fim dos primeiros dez minutos, e declarei-me em falha zeliguiana. Uns minutos mais de entrevista e percebi que até nem teria sido tão mal sucedida. Cavaco Silva não tem mesmo dotes de simpatia; tem uma deficiente capacidade de gerar empatia, nada nele é fácil ou comunicativo ou fluente.
O tom que utiliza para comunicar, com excepção do que foi a vibrante, quase eufórica, referência ao número dos desempregados, não lhe saía nem solto nem natural, mas sempre com o véu de uma cerimónia: esforçado, mastigado, rangente, distanciado.
Isto pode beneficiá-lo quando aborda assuntos que passam bem debaixo do chapéu de "matérias complicadas", fazendo com que pareça profundo e exacto, mas por outro lado resulta muito desfavoravelmente quando o assunto é mais coloquial (tais como que notas dará aos estudantes ou o que leu recentemente) ou de natureza mais genérica (tais como a IGV), ou se refere à classe de questões da vida-em-geral (tais como o papel da mulher na sua vida política) que não são por isso necessariamente questões sem que ou quê. Nestes casos, em todos os casos em que a fluência do verbo e da expressão o beneficiariam, o tom sempre esforçado e circunstancioso tornou irrefragavelmente rasante o conteúdo das suas palavras.
Ora, isto fez-me reparar que se Jerónimo de Sousa não andasse por aí a derramar comunicatividade, frases pensantes e ponderadas que lhe saem em tom calorosamente calmo, seria bem melhor para Cavaco Silva. Sempre haveria ensejo de dizer que se batia no pobrezinho - que ele, Cavaco Silva, por acaso não é. Mas depois de Jerónimo de Sousa a menção da aridez e do desinteresse da paisagem humana de Cavaco Silva deixou de poder levar o labéu de pedante elitismo urbano. Fica mostrado ao país inteiro que aquilo vai da natureza individual.
Perante isto, estou convencida de que a minha falha zeliguiana foi mínima: inclino-me a achar que não há quase nada - para não dizer, nada - em que basear uma empática adesão a Cavaco Silva, excluindo, concerteza, o caso das pessoas que lhe são muito próximas e que naturalmente gostarão dele.
Ele corresponde apaticamente ao desejo de adesão, tantaliza quem queira tomar-se de simpatias por ele, não há sumo, não há cor, não há forma, nem há conteúdo. Isto passa por honestidade mas, embora não tenha motivos para duvidar da sua honestidade, não se trata de semelhante coisa. É vazio, é aridez, é vida de menos.
No fim, senti-me fortemente constrangida ao olhar o futuro. Se este homem ganhar as eleições, para além do que já tenho por magnificamente sustentado por Soares, no que respeita ao perigo que isso representaria para a paz e harmonia no plano institucional e no plano social, andarei cinco ou dez anos em desconforto e aflições, consoante encare o exercício das suas funções interna ou internacionalmente.
Mas se este homem perder as eleições, como acredito que pode vir a acontecer, será um caso pungente de definhamento, de desolada paisagem humana e eu sentirei pena dele.

1 comentário:

Carlos Indico disse...

Eu não tenha nenhuma. E vai ser a 1ª vez que vou para a rua, aliviado, ver passar o cortejo do Outro!