Um dos mais significativos momentos da recente entrevista de Cavaco Silva na TVi foi aquele em que - como cito de memória, as palavras poderão ter variado um pouco, mas não as essenciais - Cavaco Silva se distanciou da retórica na política. Contudo, logo de seguida, esclarecendo afirmações anteriores, disse que não tinha nada contra os "políticos profissionais", que sublinhou não ser, mas sim contra os "profissionais da política". Ora isto é um passo de puro artifício retórico.
A planitude imperturbável com que as duas frases se sucederam demonstra porque é que Cavaco Silva não deve constar da galeria dos nossos Presidentes: ou Cavaco Silva pensa que pode fazer-nos passar por parvos, dizendo-nos que não estamos a vê-lo fazer o que ele nega fazer, enquanto o faz, (não sou dada a acreditar neste tipo de explicações e creio que não é esse o caso), ou Cavaco Silva não percebe mesmo a incongruência do seu discurso. Acredito que seja esta a situação. Mas neste caso, é ele que não consegue ver-se a si próprio. E se não se vê a si próprio, se se apercebe apenas por via de uma construção narcísica e normativa da sua identidade, mesmo que seja apenas da sua identidade enquanto homem público, não dá garantias de estar seriamente comprometido com a realidade e, por isso, anda profundamente à deriva.
1 comentário:
Muito bem!
Enviar um comentário