8.3.06

Capote alentejano

Assisti ontem à mais esfacelante peça televisiva de que tenho memória: no telejornal da rtp1 mostrou-se um rapaz de 21 anos, pálido e de dentes cariados, a ver num minúsculo computador (pareceu-me, mas talvez se tratasse de aparelho mais sofisticado) imagens dele próprio que tinham sido captadas dez anos antes, quando ele era simplesmente um pequeno pastorzinho precocemente removido da escola, apesar do gosto e do bom desempenho, por (supostas?) necessidades familiares.
Via-se o rapaz pálido a ver-se, a ele, pastorzinho sorridente e rosado, às ovelhas, que eram brancas, à erva que havia sido tenra. Entrevistado o pastorzinho: uma voz firme, sonhos, certezas de que, inclusivamente, concluiria - aí pelos 21 anos - o 9º ano de escolaridade. Embora dissesse que seria sempre pastor. Isto tudo com sorrisos, olho brilhante e a tal pele tisnada. Um olhar agudo sobre a vida.
Fiquei à espera de ver qual o milagre na vida desta pessoa que se via a si mesma perante as câmaras, perante mim, à distância desses dez anos, no mini computador que lhe assentava nos joelhos. Se seria como as gémeas de Sampaio, por exemplo. Se se teria tornado um pastor cibernético. Se nele tinha florescido um talento que já se vislumbraria na frescura desses anos iniciais.
Nada disso.
Tudo, literalmente tudo, parecia ter sido esbatido na vida do pastorzinho. Até o sorriso tinha ficado ténue. Já nem pastor. O 9º ano tornou-se tão distante que já nem o magoa, uma irrealista fantasia infantil. Pelos vistos, corta e atira para um monte toros de lenha. O olhar desenha uma curva redonda e pousa. A palidez. A única coisa que ele parecia ter conseguido era olhar com naturalidade para as maravilhas da electrónica que lhe tinham posto ao colo. O que só reforçava o tom escurecido dos dentes.
Isto foi mostrado ontem, sem qualquer outra explicação para além da curiosidade de exibir um "antes e depois". Sem mais nada.
Exibido ficou o fracasso organizativo de todos nós, a cegueira ética das nossas prioridades, a mediocridade dos nossos resultados, a indigência extrema com que nos enrolamos ao som do cacarejo de bichas odientas, matronas ressabiadas e emproados de diversas boçalidades. A minha vergonha, também, ficou à tona. Bem como a necessidade de trazer viva a insatisfação que o pastorzinho não pode sequer permitir-se.

5 comentários:

maria disse...

Também senti vergonha e nojo!!!

Anónimo disse...

Gostei do texto. É verdade que muitas vezes são impostas às pessoas convenções, sem que os impositores se interroguem acerca do porquê dessas imposições. É este o mundo em que vivemos...

João Villalobos disse...

Excelente post!

bruno disse...

Olá
Vi parar a este blogue a partir da caixa de comentários do Destreza da Dúvidas e deparo-me com este texto.
Nem sei bem como classificá-lo. Incomodou-me. Indignou-me.

O Miguel Torga (acho que era ele) dizia que as pessoas do campo, por passarem a vida entre animais, adquiriam a pouca expressividade destes. Ficava-lhes o rosto mudo...

Onde estaria hoje esse rapaz, se não tivesse abandonado a escola? Talvez entre nós, a blogar. Ou a descansar após mais uma época de exames... Etc, etc...

Entre nós. Era esse o lugar dele. O país optou por lhe oferecer a companhia das ovelhas.


excelente blogue!
Bruno

Graza disse...

Completamente de acordo. Quanto à vergonha, sinto-me no fim da lista, o que dá para que essa não seja já, vergonha, mas revolta. E também o deveria sentir desta forma, porque a avaliar pelo que vai escrevendo, tem motivos suficientes para excluir a auto-penalização. É mais ou menos o assumirmos o ónus e termos vergonha pelos desavergonhados que a deveriam ter. Mas esses saem todos os dias em levas com aposentações e reformas douradas, como o pão nosso de cada dia.
Valeu de mim, mais um post/link. Bravo.