19.3.06

Querido Criador

Escreve-te, não o escondo, uma miúda sem camisola, sem clube. Oiço dizer que ocasionalmente isso não te molesta e só por assim ser me atrevo a dirigir-me a Ti.
Crendo que o facto de hoje ser domingo Te fará estar de mais brando humor que nos outros dias em que te borrifas para as calamidades que nos afligem - alacridade à parte, até compreendo isso, também eu tenho essa tendência de me descartar das responsabilidades que não tenho meios para controlar - vinha aqui sugerir-te um pequeno aperfeiçoamento para a tua próxima criação de Nós.
Pensarás que venho pedir mais eternidade, mais tempo de vida, mais juventude, mais prazer, mais conforto, mais saúde, mais harmonia, mais amenidade das forças naturais, mais beleza, mais equilíbrio na distribuição das benesses, incluindo os talentos, mais talentos, mais alegria...
Bom, nada disso! Para isso já terás todos os teus crentes todos os dias a azucrinarem-Te as divinas antenas e é para mim já claro que ou não queres atender a isso, ou perdeste o livro das receitas.
O que eu Te peço é uma coisa muito mais modesta. Isto, simplesmente: um critério. Dá-nos, da próxima vez que te puseres na plasticina, um critériozinho, uma pauta, um conceito, uma lista já ordenadinha, se quiseres ir tão longe, que sirva para, de uma vez por todas, uma alma penada sem pretensões, nem ambições transcendentes conseguir orientar-se no elenco do que haveriam de ser as suas prioridades. Por favor, um critériozinho para organizar as nossas prioridades! Vá lá! Não há-de ser coisa assim tão inacessível se nos soubeste organizar tão bem o sistema da premência dos desejos.
Insistindo no meu pedido, não deixo de te lembrar que o interesse também é Teu: o assédio pedinchoso dos teus crentes diminuiria pela certa...
Saudações desta tua criada.

11 comentários:

timshel disse...

já o deu

há dois mil anos atrás

“Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1 Jo 4, 16).

é este o mandamento supremo, aliás, o mandamento do amor é o único mandamento
(Jo 15 12)

é este o critério

(embora Deus não me tenha passado nenhuma procuração julgo interpretar bem a Sua vontade nesse sentido)

Susana Bês disse...

timshel, acho a ideia absolutamente inspirada para promover uma boa expressão facial, frescura, olhar brilhante.
para critério de ordenação das prioridades... não lhe vejo qualquer conteúdo, embora a ideia de permanecer no amor não me pareça de todo desagradável

timshel disse...

"boa expressão facial, frescura, olhar brilhante"

isso é apenas o bonus estético (que não deixa obviamente de ter muito sex appeal)

:)

Anónimo disse...

Porque não fechar este blog?

O seu pensamento é insano.

V. Exa comprende uma contradição?
As implicações de uma contradição?

Eu aguento.

V. nunca na vida irá aguentar.

Vaidade. Nunca confunda vaidade com inteligência. V. Exa nada sabe.

A Formiga

Susana Bês disse...

Para já, ainda não fecho o blogue. Tem, no mínimo, a utilidade de proporcionar às formiguinhas azedas sonhos de grandiosidade. Além da de me proporcionar, em troca, ensinamentos sobre vaidade e inteligência, fornecidos com módulo prático de aplicação e tudo.

maria disse...

Susana

não és nada modesta a pedir. Embora na insanidade dos nossos dias, sempre achamos que já temos essa dádiva. Olha, como andamos lestos.

maria disse...

Timshel

S. João escreveu isso muito bem, podia era ter acrescentado umas instruçõezinhas. É que eu perco-me na procura dos critérios.

CA disse...

Susana

Na verdade o critério é o amor (a Deus e ao próximo, em geral), de que fala o Timshell, mas a aprendizagem prática (e com isso a ordenação dos critérios) faz-se em geral numa comunidade cristã, com os outros, integrando a vida, a fé e a oração, à luz do Evangelho. Uma vivência equilibrada do amor é uma aprendizagem para se fazer toda a vida.

Anónimo disse...

Minha filha:

Perante duas coisas, rejeita sempre a mais feia.

Não tens que agradecer.

Anónimo disse...

P.S.:

Não acredites em tudo o que esta gente diz sobre mim.

Susana Bês disse...

MC:
talvez o pedido não seja modesto mas se, como digo, o sistema dos desejos foi formado de modo a estes serem expressos com toda a premência que lhes couber ter, por que razão a motivação para a acção não poderia espelhar uma ordem de prioridades inevitável?

CA:
Nem tudo vai ao critério do amor! E nem o amor dispensa o critério. É mesmo preciso o critério!


Paulo (?):
Seca, não! Seca é que não. Então a gente anda para aqui aos ziguezagues a perder o seu tempo, nas fífias e nos falso arranques, na desorientação e na contrariedade e o que nos levava directamente ao bolo é uma seca?

Deus:
Deus-lhe-pague! Gostei do critério e vou seguir o conselho. Bem haja!