1.3.06

Uma pessoa chamada Gis

Estou de acordo com o Luís e através dele com o que leio nos Avatares de um Desejo.
Penso no tempo que por vezes demora a eliminar uma vida. Recordo-me, por exemplo, de uma garoupa que não se despreendia da vida e me obrigou a sucessivas manobras de procura de algum centro vital até que se apaziguasse. O nojo de impor a morte, acredito, progride ao longo da escala evolutiva, desde a animosidade ligeira até ao ódio.
Penso também nas histórias da infância, de pessoas vitimadas por "ataques", que eram veladas agonizando nas suas camas, por vezes dias a fio, sem comer, sem beber, sem falar, talvez sem pensar, e nunca mais se deslindava o estertor final. Penso em alguém que levou uma heróica luta de sobrevivência a dois anos agónicos, até que se foi misteriosamente. Penso como é às vezes resistente esse fio que nos prende à vida, como é às vezes acesa a luta para o cortar.
Penso na quantidade de pedradas, de golpes, de impactos que foram necessários para matar a Gis. Penso na quantidade de energia, de incitamento, de largueza, de esforço. Na persistência de Gis a não morrer, no alevantamento dos ânimos mais e mais agastados, na ebulição de ímpetos, na exaltação do abismo da ira, da repulsa odiosa, na descurada banalidade do mal. Penso se terão sido muito confusos ou muito pacificados os últimos segundos da consciência de si, da Gis. Penso na última centelha do último olhar de ver e no silêncio depois.

4 comentários:

zero disse...

na vida portanto!

antónio paiva disse...

.....é a vida.....

Anónimo disse...

também ando por aí!

Anónimo disse...

Mas no fundo, que prentendia afirmar aquele bando de miúdos, armados em graúdos, com infâncias castradas, pintadas a cinzento, cujo ódio varreu uma vida, já por si como a deles, deplorável?