16.2.07

No era això, companys, no era això

Não se pode ser pragmático (concedendo conveniente sentido ao maltratado termo) e recto, em simultâneo, a maior parte das vezes.
O progresso representado pelo resultado do referendo foi enorme para as mulheres, não me canso de o dizer e de me congratular.
Mas, na senda da lamacenta proposição da questão de consciência, à Guterres, que só serviu para baralhar ainda mais toda a gente (que questão ética não envolve questões de consciência? que questão deve ser ou deixar de ser assunto legal só por envolver a consciência?) o partido socialista voltou a contribuir pouco para o progresso da consciência ética e cívica.
A linha de defesa do SIM, que insisto em chamar táctica, do isto é só despenalização e não é para discutir mais nada, shiu, estejam caladinhos será habilidosa mas foi pouco transparente.
A ideia de que o povo não está em condições de saber a verdade, é um engano de cínicos. Estes é que podem não estar preparados para dizer tudo.
O facto de ser tido por desastroso discutir em aberto o que estava em causa valorativamente mostra como a questão andou totalmente negligenciada deste 1998 - entenda-se, entregue sem qualquer resistência à opus/igreja, ao exercício desse controlo da sexualidade humana como ferramenta insidiosa de influência social. Perante uma classe política esmagadoramente masculina e dominada, sem excepção, por homens, não se consegue sentir grande surpresa com semelhante desleixo.
Não era, pois não, não era, em três ou quatro semanas que se recuperava o atraso.
E houve ainda outros custos: o contributo negativo quanto à disseminação de uma ideia de racionalidade do sistema penal e, por via dele, das instituições da própria sociedade democrática. Se não se discutiu abertamente que na despenalização da IVG iria implicada uma prevalência da autodeterminação da mulher sobre a protecção da vida intra-uterina, se era tudo uma questão de desgraçadas, então esse bom povo que foi poupado à discussão bem pode concluir que todo o catálogo penal, do furto ao infanticídio, todo o sistema da coacção estatal, tudo isso fica candidato a semelhante relativização. Não é disto que andamos a precisar por estas bandas, mas sim do contrário.
Pessoalmente acredito que o bom povo é mais avançado que os cínicos da política. Por uma questão (agora sim) pragmática. Acredito que foi por isso mesmo que o SIM ganhou.

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