13.2.06

Achada de vírgulas e brincadeiras

Eu acho que representar Maomé como um terrorista é um acto tão obsceno, tão vilipendioso para o meu amigo D., que, por acaso, reza a Alá, que fico a pensar se não violará a lei que protege o respeito pelos símbolos religiosos.
Eu acho que, se, por hipótese, essa representação não couber, como acredito que cabe, dentro do que a lei considera crime, representar Maomé como um terrorista depois do 11 de Setembro, depois do 11 de Março, depois do Metro de Londres, quando nos descalçamos nos aeroportos, quando olhamos para mochilas esquecidas e pensamos "será que", quando até se matam brasileiros inocentes por terem um ar vagamente islamizado, é uma alarvidade preconceituosa.
Eu acho que dizer que não pode ser colocada uma vírgula à liberdade de expressão é, eticamente, um rotundo disparate e, quanto às leis existentes, uma completa falsidade.
Eu acho que se pode brincar com tudo. Tal como acho que há actos de agressão disfarçados de brincadeira ou executados através das palavras.
Eu acho que acreditar piamente que os nossos valores de referência são mais intocáveis que os dos outros é obscurantista e nocivo preconceito. Isto aplica-se a todos os que se emocionam com o contraste e correm a pegar nas bandeiras, em ambos os lados.
Eu acho que aqueles muçulmanos que não lêem jornais, nem vêem cartoons e, apesar disso, incendiam embaixadas com os olhos turvos de lágrimas de ódio e redenção pelo sangue, são ignorantes. Tal como o nosso Miguel Sousa Tavares. Que também não me representa.
Eu acho, para acabar esta achada, que os nossos valores de referência são importantes simplesmente porque são os nossos. É quanto basta. Pela mesma razão, os "deles" também são.
*
Post-post: Na achada do Lutz há bom oxigénio e a vista é luminosa.

3 comentários:

timshel disse...

eu não estou inteiramente de acordo com este post, sobretudo com um pequeno detalhe do último parágrafo mas o nosso acordo chegou a um ponto de tal modo perfeito que não quero estragar a beleza do momento (beleza que também decorre da sua raridade) :)

Susana Bês disse...

:) "...chiufff..."

Susana Bês disse...

Vou ter de desfazer este momento de enlevo e escrever um post com o título "porque é que o meu último parágrafo NÁO conduz ao relativismo na sua versão de tanto-faz-ismo". Estou baseada numa visão do indivíduo que uniformiza os valores de referência e torna dialogáveis as diferenças. ~