18.2.06

O eu sem mim

Era uma amnésia invertida. Sabia o nome, o lugar das coisas, as datas. Elencava sem esforço os principais colunistas de sete jornais, o jantar de ontem e as férias do ano passado. Não havia mistério com horários, preferências dos clientes, encomendas e projectos. Sabia o conteúdo funcional da sua posição na empresa e o seu estatuto na família, na sociedade, situações de trânsito incluídas. Mas perdeu a inteligência da fome. Não se lembrava onde ficava a boca por onde saciasse a fome que o consumiu sem que tivesse chegado a lembrar-se, também, do motivo daquela crescente fraqueza.

2 comentários:

Paulo Cunha Porto disse...

Trata-se da elevação ao máximo expoente do antigo ideal da eliminação do egotismo?

Susana Bês disse...

Não foi essa a intenção, mas sim a ironia que havia de ter ficado já sugerida na síntese que tentei com o título.