Lá me infiltrei, disfarçada de pastelito de bacalhau, não fosse darem por mim, para ir ver e ouvir o Bill Gates. Tinha de ser, gosto de cheirar as pessoas que fazem coisas. Ouvi-o mencionar os blogues como uma poderosa ferramenta de expressão e de comunicação que hoje está ao dispor de qualquer um (não será bem assim, mas para lá caminha). Básico e simples. Chamo a esta visão dos blogues a versão Hyde Park da blogosfera (estou a usar expressão que li bloggures, sem me lembrar onde, e rendo homenagem ao autor desconhecido).
Não tenho conhecimento - penitencio-me pela falha eventual - de nenhum orador do Hyde Park que tivesse passado direitinho para a Câmara dos Lords, para o Times ou para qualquer outro patamar de exposição em carne e osso do talento. E isso não é falha dos caixotes em que se toma a palavra, nem do regime de admissão nas veneráveis instituições mencionadas. Na versão Hyde Park, são as palavras, as ideias, que giram e circulam; não são os indivíduos que se movem, não há fusão de mundos, não há convergência no instituído.
Recentemente, depois de quatro meses na blogosfera activa, dei-me conta de que há uma outra orientação, que é a versão cenário. Faz-se disto uma comunidade, com mercado, profissionalização, tendências, papas e cardeais, preitos de vassalagem, tornitruâncias, cumplicidades, gritos de Ipirangas, fusões e secessões, enfim, uma cidadezinha em ponto pequeno e à escala humana, com os compadres e as comadres, dando-se os bons-dias e dois ou mais dedos de conversa, arrastando as caudas, os mantos, os emblemas e os chifres próprios das trocas e baldrocas do convívio civilizado.
Nesta versão cenário, evoca-se o mundo real, integra-se o cenário, que afinal é mimético, nas coordenadas do mundo. É claro que este mundo blogosférico é virtualmente tão real como qualquer outro dos nossos conhecimentos, mas o que é interessante é saber se mantém ou não uma lógica vadia, se se afina ou desafina pela toada de outras comunidades já constantes dos mapas tradicionais, se absorve ou não absorve as hierarquias comuns. A versão cenário vai no sentido da fusão. Se um destes dias começar a encontrar publicidade a blogues por essa cidade fora, nos jornais, na rádio, pelas ruas, concluirei que ficou consumado mais este mapa cor de rosa. Nada contra isso, excepto quanto ao achatamento da paisagem; até porque Hyde Park é vivaz e dá-se bem com a periferia.
3 comentários:
o fenómeno dos papas é assustador, nos blogs como noutro lado qualquer; tenho pensado nas razões para a existência destes papas, ou gurús, na blogosfera. A melhor explicação a que cheguei foi a de que isso é apenas o reflexo de um facto que, mais do que assustador, é aterrador: há poucos, sempre houve poucos, homens livres. A maior parte destes intrépidos blogadores corre de bom grado para a segurança dos braços de um papa. E para o conseguir acha que tem que imitar, concordar, admirar.
Papaguear, fazer rolar fórmulas verbais, sinalefas de pertença... Rituais de dominação, espontânea subordinação. O aconchego do grupo. A força. Vencer. Não ser derrotado. Cerrar fileiras. E depois, as decisões são tomadas segundo lá no Hotel Sossego se descreve... pois, os "estudos"...
It's a long way...
Esqueci-me desta: e o medo, o medo, o medo.
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