21.2.06

Quando soube ao fim do dia

Quando soube ao fim do dia como o meu nome havia sido recebido com clamores no capitólio, ainda assim não foi para mim feliz a noite que se seguiu;
E também, quando brindei ou quando os meus planos se realizaram, ainda assim não fui feliz;
Mas o dia em que me ergui de madrugada em perfeita saúde, refrescado, cantando, inalando o maduro hálito do outono,
Quando vi a lua cheia no oeste fazer-se pálida e desaparecer na luz da manhã,
Quando vagueei só pela praia e, despido, me banhei rindo nas águas frias e vi o sol erguer-se,
E quando pensei que o meu amigo querido, meu amante, vinha a chegar, oh então fui feliz;

Oh então mais doce era o sabor do ar - e durante todo esse dia a comida me alimentou mais - e o maravilhoso dia passou-se bem,
E o seguinte dia chegou com igual júbilo - e com o seguinte, à tardinha, chegou o meu amigo;

E nessa noite, enquanto tudo estava tranquilo, ouvi as águas enrolando-se lentamente continuamente pela praia,
Ouvi o sibilo murmurado das águas e das areias, como se dirigido a mim, suspirando, felicitando-me,
Pois aquele que eu amo mais repousava adormecido junto a mim sob a mesma coberta na noite fria,
Na quietude, no luar de outono, a sua face inclinada para mim,
E o seu braço pousava levemente em torno do meu peito - e nessa noite fui feliz.

Walt Whitman, When I heard at the Close of the Day. Leaves of Grass (1860)
trad. insana

2 comentários:

Carla de Elsinore disse...

Olá Susana, este é um dos meus poemas preferidos do WW e, não sei se saberás, que está traduzido pelo josé agostinho baptista, num livrinho maravilhoso que se chama cálamo. por acaso já o publiquei em elsinore (há muito tempo), aqui fica, para o descubra as diferenças:
Quando soube ao fim do dia


Quando soube ao fim do dia que o meu nome fora aplaudido no Capitólio, mesmo assim nessa noite não fui feliz,
E quando me embriaguei ou quando se realizaram os meus planos, nem assim fui feliz,
Porém, no dia em que me levantei cedo, de perfeita saúde, repousado, cantando e aspirando o ar fresco de outono,
Quando, a oeste, vi a lua cheia empalidecer e perder-se na luz da manhã,
Quando, só, errei pela praia nu e mergulhei no mar e, rindo ao sentir as águas frias, vi o sol subir,
E quando pensei que o meu querido amigo, meu amante, já vinha a caminho, então fui feliz,
Então era mais leve o ar que respirava, melhor o que comia, e esse belo dia acabou bem,
E o dia seguinte chegou com a mesma alegria e depois, no outro, ao entardecer, veio o meu amigo,
E nessa noite, quando tudo estava em silêncio, ouvi as águas invadindo lentamente a praia,
Ouvi o murmúrio das ondas e da areia como se quisessem felicitar-me,
Porque aquele a quem mais amo dormia a meu lado sob a mesma manta na noite fresca,
Na quietude daquela lua de outono o seu rosto inclinava-se para mim,
E o seu braço repousava levemente sobre o meu peito - nessa noite fui feliz.

Susana Bês disse...

Obrigada Carla! Eu tive esse livrinho, duas vezes, para ser exacta. Da primeira vez, há uns dez anos, li-o tantas vezes que acabou por desfazer-se e perdi algumas folhas durante uma viagem. Depois comprei um novo e um dia deixei-o algures a alguém.
Não me recordava já de toda a tradução e gostei muito de a voltar a encontrar. Sabia que tinha, logo desde o início, uma inclinação para dizer de outro modo algumas partes. Recordo que o meu primeiro exemplar estava escrito e reescrito com notas a lápis. Agora, depois de mapeadas as diferenças, quase me apetecia tentar nova volta, misturando umas daqui e outras dali. Imprimi o original e as duas traduções. Descobrir as diferenças é ainda uma outra aventura no poema.
E, claro, o poema é muito bonito. Agradeço outra vez.