15.2.06

Liberdade de pensamento

Oscilam entre o descritivo e o normativo. E são mais lamentações que leis.
Mas se o Papa Abruptus I alguma vez na vida teve razão foi na sua primeira lei, que descreve sumariamente a falta de liberdade de pensamento nos hábitos da paróquia. Ou melhor, descreve a falta de uso, a falta do hábito do uso do pensamento livre.
Assim, quantas vezes o desvio "da posição" é zurzido como contradição, vezes demais, cedo demais, com fervores judicativos e soberanos, a excomunhão sempre a pairar.
Com demasiada frequência, para zurzir melhor a posição contrária, finge-se que o seu defensor é idiota. Base primeira para usar o velho argumento ad hominem.
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O argumento funciona de modo simples: primeiro, faço de X um idiota ridículo ou um bandido vendido (às vezes com piscares de olhos e outras sinalefas de corte impróprias de uma dama honesta mas abundantemente usadas em diversas confrarias). Ora, é sabido que os idiotas ridículos ou os bandidos vendidos não dizem coisa que preste. Logo, o que X diz não presta.
Um pouco de rodagem nesta habilidade e chega-se à suprema apresentação do argumento. Basta dizer: Fulano disse tal e tal. Desencadeiam-se, de imediato, risos e contorções nas hostezinhas, e por contraste surge A Palavra a Seguir.
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Há outra maneira, mais elegante, mais invisível, de insuficiente exercício da liberdade de pensamento que, aliás, nos primatas superiores creio ter uma função paralela à amorosa desparasitação ou respeitosa apresentação retro-anal entre outros primatas não tão superiores (sempre segundo o superior ponto de vista do primata superior, entenda-se).
É a que se prende com o facto de serem três, e não apenas uma, as vias da persuasão, recordando o que debalde nos tentou ensinar o bom Aristóteles. Recapitule-se: persuade-se pela bondade ou validade do raciocínio (logos) que, para isso, havia de cultivar-se ser claro, ligeiro e escorreito. Mas persuade-se também pelo apelo às emoções (pathos) e ainda pela credibilidade que o orador vê em si depositada pela audiência (ethos).
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Bem controlada, a confiança na credibilidade do defensor de uma ideia é um instrumento interessante para gerir energias no cansativo caminho do desfiar dos juízos sobre as questões que a maré nos vai trazendo. Ou seja, não precisamos de estar a refazer sempre o caminho todo inteiro; num ponto qualquer podemo-nos basear em alguém com provas dadas de probidade e boa pinta nas ideias.
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Porém, para além da dose legal, que é homeopática, a confiança na credibilidade do orador é uma armadilha à liberdade de pensamento. Torna-se um encosto e não um apoio; amolece em vez de promover a melhor utilização das energias.
Descontrolada, incontrolada, tornada habitual e, em qualquer caso, para além de um mínimo uso, com parcimónia e condicionalidade, a confiança na credibilidade do orador dá cabo de qualquer debate. Entre o que adere e o orador. Entre os que aderem e os que não ouviram, não conhecem, não seguem, não catam o orador de referência.
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É necessário debate válido para que a liberdade de pensamento floresça. E valerá a pena dizer que sem ela a liberdade de expressão corre o risco de ser a caixa de ressonância dos pusilânimes, mesmo que se trate de cow-boys ruidosamente armados até aos dentes (e obedientes, e subservientes)?
É necessário debate válido para que a liberdade de pensamento floresça. A primeira lei do Abrupto tem de ser falseada.

6 comentários:

timshel disse...

é verdade

mas se não existir um pouco de demagogia, emoção e sangue, a blogosfera perde um bocado de piada (pelo menos para mim que sou um reprimido demagogo emocional e sanguinário)

parece-me (como sempre) que tudo se resume a uma questão de equilíbrio

Helena Araújo disse...

Isto lembra-me os primeiros tempos da blogolândia: como (eu) não conhecia ninguém, as ideias andavam à solta, livres de outras roupagens. Terá sido um jardim do Éden antes de provarmos o fruto do conhecimento e começarmos a rir, "lá vai ele outra vez, olhem como vai nu"?
Belos tempos.
Quase dá vontade de recomeçar tudo com novos nomes, só pelo gozo de passar algumas semanas a discutir ideias, ideias apenas.

Susana Bês disse...

Timshel, fico de mãos atadas com esse comentário. Não posso dizer "pois!,isso mesmo, os astros continuam favoráveis". E, talvez pior, também não posso dizer: "bem me tinha parecido". :)

Em qualquer caso, (penso que, posto o qeu está dito) tenho uma boa notícia: um destes dias vou comprazer-me a dar tautau a essa ideia de que o "meio" tem a virtude. Só nas virgens católicas.
- está bem temperado assim o tom, a bem da blogosfera? ;)

Helena, também me dou conta, sobretudo de uma diminuição no debate e também a relaciono com a questão dos nomes. Devíamos todos mudar de nome de vez em quando na blogosfera, tal como de hábitos na vida real. Será? Aliás, acho que todos deveríamos usar um véu de desidentificação. Não obter adesões nem críticas de borla, nem as fazer por pré-adesão.

Helena Araújo disse...

Susana,
já cá estou de burqa, aposto que ninguém me vai conseguir reconhecer.
O novo blog chama-se Dois Dedos de Conversa em Tom Abafado, mas é segredo.
Abraços,
Fátima

lb disse...

Essa ideia de mudar de identidade, ou de assumir outra, anónima, também me ocorreu, depois de dois anos de blogue. Só no meu caso, só se escrevesse em inglês. :(

Helena Araújo disse...

Lutz,
também pensei nisso, e tenho solução: ofereço já revisões a preço de amigo. :-)