
Nos últimos dias jornais de diversos países dedicam alguma atenção a um artigo publicado no último número do British Journal of Psychiatry relativo a um estudo realizado sobre o cérebro dos mentirosos. Segundo este estudo as pessoas que mentem patologicamente têm uma estrutura cerebral especificamente distinta - pelo que compreendo, com um maior desenvolvimento de uma área prefrontal, aquela mesma que já se sabia desatar em actividade quando se diz uma mentira, e com menor desenvolvimento de uma outra área que parece estar associada à experiência do remorso e da culpa. Entre os que mentem patologicamente e os outros haveria diferenças (agora) claras nessas duas áreas.
Isto leva a recapitular como mentir é uma actividade complexa e sofisticada.
Mentir requer uma capacidade de se colocar no ponto de vista do outro, de avistar o mundo e as suas plausibilidades a partir dessa alheia (id) entidade. Para mentir bem tenho de saber o que é geralmente tido por credível e será ainda melhor se eu souber muito bem o que é caracteristicamente tido por credível por esta pessoa em particular à qual pretendo enganar.
Como se isso não bastasse, mentir implica também a exigente tarefa de controlar todos os sinais possivelmente emitidos por nós (o que parece que não é exequível por inteiro, mas lá se vai dando um bom jeito) e ainda a espinhosa tentativa de colocar em segundo plano todas as emoções que possamos genuinamente ter sobre o assunto, a começar pela ansiedade da situação de mentira.
É muito trabalho, não é?!
Em conclusões rápidas, duas de sentido contrário:
1- no que respeita aos mentirosos compulsivos, lá vem mais um caso, parece, em que temos de pensar seriamente na questão da exigibilidade/censurabilidade do comportamento, ou não, com todas as consequências que isso possa ter, em matéria moral e jurídica;
2- no que respeita à trabalheira que dá mentir, guardo comigo mais esta achega para uma base "natural" das virtudes ou do bem: para além da inconveniência social da mentira, talvez ela seja também individualmente insustentável como comportamento habitual (e daí a fronteira da patologia). Quem teria energia e recursos mentais e emocionais para gerir em permanência a manipulação de si e do mundo, num malabarismo de emoções e cognições de outro tipo, tendo ainda em conta que a mentira tende a multiplicar-se? Parece mais um caso de que o "nada há mais prático que o bem" corresponde ao melhor ponto de vista...
1 comentário:
Se é que em realidade existe a "mentira" ou, mesmo, a "verdade" ¿?. Ou, não será uma complemento da outra?. Q se define como uma coisa u outra ?, claro, teêm peso cultural. Ambas podem ser aceitadas, o único que não se alcança é que ambas sobrevivam juntas. ¿Porque? porque o universo cultural está comformado de dicotomías. Não aceitamos que 2 coisas sejam complementarias, ou uma só !
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