Na blogosfera, não desfazendo, há três em especial. E estou desconversada com todos eles neste momento. Não é motivo de júbilo. Acredito que vale a pena expor pontos de vista.
Eu digo que a liberdade não é um fim em si; o Lutz pergunta-me de que fim é então.
Eu digo que gosto das palavras mas não me emociono demais com elas e o Luís pergunta-me se eu discordo dos rapazes da estrada e porquê colocar vírgulas.
Por outro lado, o Afonso toca a rebate por crer que qualquer vírgula na liberdade de imprensa será um silêncio a mais (embora depois, em comentário, suscite a questão da efectividade da própria liberdade de imprensa, a que quaisquer limitações abundariam às limitações já de raíz, se bem entendi, e acrescente, conquistando a minha adesão, que a liberdade de opinião é em si mesma um dispositivo retórico que, nas sociedades ocidentais democráticas, camufla o exercício arbitrário do poder simbólico - o poder de dizer o que e como as coisas são).
Entendo o seguinte:
Eu digo que a liberdade não é um fim em si; o Lutz pergunta-me de que fim é então.
Eu digo que gosto das palavras mas não me emociono demais com elas e o Luís pergunta-me se eu discordo dos rapazes da estrada e porquê colocar vírgulas.
Por outro lado, o Afonso toca a rebate por crer que qualquer vírgula na liberdade de imprensa será um silêncio a mais (embora depois, em comentário, suscite a questão da efectividade da própria liberdade de imprensa, a que quaisquer limitações abundariam às limitações já de raíz, se bem entendi, e acrescente, conquistando a minha adesão, que a liberdade de opinião é em si mesma um dispositivo retórico que, nas sociedades ocidentais democráticas, camufla o exercício arbitrário do poder simbólico - o poder de dizer o que e como as coisas são).
Entendo o seguinte:
A liberdade de expressão é meritória como instrumento de afirmação da pluralidade de opinião e como instrumento de acesso às realidades distantes da experiência directa, de modo a que as instâncias de controlo do poder não se alheiem dramaticamente dos interessados. Tudo isto para que a sociedade possa organizar-se e desenvolver-se da maneira mais amena e mais favorável à expansão máxima de cada indivíduo. É abstracto, mas será isto.
Para além deste aspecto, cabe apontar que a liberdade de expressão não é uma grandeza absoluta. Trata-se sempre de alguém a dizer o que pensa sobre alguma outra coisa. E narrá-la-á segundo o seu entender, com a facilidade do altifalante de que dispuser. Controlo sobre a utilização do altifalante, não há. Basta fazer um mídia e já temos altifalante. Sem nenhum caminho de legitimação da voz. Aleatório, no mínimo. Pega-se num altifalante e berra-se literalmente o que se quiser? É bonito, como inspiração para humores épicos. Mas, por favor, não berrem sobre mim o que quiserem, que eu posso não gostar.
E assim, chegamos à questão das vírgulas.
Querem alguns senhores, que fazem profissão no grande trombone que são os mídia, convencer-nos que o nosso acesso à melhor informação, aquela que nos permite realizar as reflexões mais profícuas sobre as decisões e acções a tomar sobre o nosso destino, dependem criticamente da situação de ilimitação na sua actividade. Ora, não acho. Bons elementos e melhor reflexão bastam. Nas ilhas remotas, nos lugares longínquos pode pensar-se e decidir-se racionalmente sobre o mundo.
É poder puro e duro, mas apenas num plano simbólico, o que é reclamado pelos gritos da liberdade de expressão. E não é verdadeiramente de expressão, é de imprensa. Não é da minha expressão aqui que se trata. É da afirmação de uma intangibilidade o que se trata. Ora, poderes absolutos, que não reportam, que não se referendam, não quero eu.
Entretanto, faz-se da face épica de uma defesa de liberdades o elemento de uma luta que protagoniza o choque de civilizações. Lamentável equívoco. Está longe de ser claridade e racionalidade de lés a lés aquilo que anima o nosso lado.
9 comentários:
Notável, Susana. É isso mesmo. É o primeiro comentário absolutamente lúcido que leio sobre a história das caricaturas.
Teresa
Desconversada nunca, Susana. Quando muito, desencontrada. Sim, desencontrada. Mas não onde pensa. Para radicalizar a crítica (no sentido de ir mais fundo) há que interrogar as próprias expressão/opinião enquanto instâncias de privilégios e de mobilização de recursos digamos discursivos e argumentativos. A maior parte das pessoas com efeito está excluída da razão opinativa, isto é da possibilidade de produzir uma opinião reconhecida. Fica para outra altura.
Afonso Bivar,
Não há nem haverá nunca um trombone para cada um. Nunca houve, nem em Atenas.É simplesmente uma impossibilidade práctica, tão vulgar, que me pergunto de devia enunciá-la.
Toda a informação está controlada ( não falando do coitadinho do Director, que tem que fazer pela vida) logo na emissão da mesma.Quem a produz e vende aos emissores mais próximos de nós.
( não estou a falar de desastres de carros, e até esses....)
A Tradução da Informação para ser entendida com alguma veracidade é possível a quem tem acesso a vários emissores, e bastante traquejo que dá o tempo de prática.
Quanto ao trombone, devemos ter apenas uma sociedade em que seja ilegal ao Estado reprimir o acesso a um trombone (p.ex. ler este post), ou outro pessoa por si. Mais, que defenda a pessoa quando esta é impedida pelos donos do aparelho.Não é pacifico eu sei.
Sei que é complicado porque a informação ocidental é um negócio brutal.Este recente reduto (blogue) tão livre que é, não será por muito mais tempo porque vai ser necessário pagar o conteudo ao blogueiro para este pagar ao, e este ao....
A informação não é um foguete a estoirar no ar com os parolos a olhar, mas uma vela trémula numa noite de vendaval que ás vezes apaga-se.Enfim, muitas gente rasga camisas a gritar VIVA A NOSSA LIBERDADE!, mas pouca gente realmente a quer quando NÂO É A SUA liberdadezinha.
A que por enquanto temos, não sobra mas não chega.É neste hiato que está a liberdade. Mas há muito medo, por aí, desta Senhora, encapotado em palavreado aparentemente libertário.
Solvstäg está em completo acordo (diz-se assim, ou não?) com a Susana.
E é também por isso que não subscreve o manifesto "Como uma liberdade".
Visitas da minha estima...
... Teresa
... Sara
... Afonso
... Carlos Indico (também com uma "ensinante" palmadita na nádega prometida aqui pela "medricas" ...)
... JPT (dizendo também que me parece que a expressão "liberdade de expressão é a retórica ..." se refere não à acção humana mas à construção logos-ística, cristalinamente perceptível sob um cheirinho de Bourdieu; mas melhor que eu o Afonso, cuja caixa de comentários suscitam virtuosos exercícios de não-impaciência, dirá, se assim entender)...
... atendendo à explosividade e à alacridade do tema ....
foi um prazer vê-los passar por aqui!
Imperdoável! Solvstäg também (o lapso tem para mim, contudo, um aspecto euforizante porque mostra-me que estou a funcionar benzito, uma vez que o comentário deixado lá em casa do Solvstäg terá funcionado como um "dar baixa" da mesura muito devida)
Levantei-me,dobrei-me, arregacei-me, ageitei-me.... até ás 23H25. ..........................................................................................................................................finish!
Carlos Indico: muito bem, ficou concluída a penitência. Vinde em paz.
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