31.10.05

Desmemoriados


É como às vezes me parecem andar os portugueses, esquecidos de si mesmos, peitinho todo feito à Europa de que, aliás, me sinto - também - cidadã.
O problema com a falta de memória é que deixamos de saber quem somos e se não soubermos quem somos, não somos, perdemo-nos, goramo-nos. Do colonialismo pindérico para as cicatrizes da descolonização, passando pelos vapores da aproximação à passada europeia e rematando nas macro ou micro arrastonices, nunca se conseguiu ainda fazer espaço para deixar medrar e espraiar-se a imprescindível consciência de que partilhamos uma condição existencialmente relevante com o espaço dito da lusofonia - partilha essa que é culminante no caso dos países lusófonos africanos. Não são os espanhóis que são "nossos irmãos", não são os primos brasileiros; são os africanos da matriz cultural portuguesa (com a devida licencinha às ilhas de Cabo Verde, ainda à procura da sua plataforma continental, pelo epíteto africano, e com a perfeita consciência de que a expressão "matriz cultural portuguesa" presta-se a ser sovada pelo primeiro especiesismo semântico que irrompa de um qualquer desassossego).


A mensagem do dia é que a lusofonia, seja ela o que for, existe.
Ela não é, seguramente, cativa de Portugal, apesar de inúmeras gaffes bacocas por parte das organizações.
Ela existe apesar da extraordinária invisibilidade aos olhos dos portugueses - que a não vêem ou porque simplesmente nem sonham com as grandezas do mundo, ou porque o preconceito, à direita ou à esquerda, os impede de surpreender a identidade.
Isto tudo veio ao de cima por ter começado o dia a ler esta oposição; como espectadora, para além da satisfação de ver o assunto bem disputado, não posso deixar de reparar, com uma nitidez cortante, que a verdadeira oposição é entre os que têm e os que não têm consciência de que esta é uma das bases da nossa identidade, qualquer que seja a maneira como a representamos.
Recordo um provérbio secular que diz: "quem nunca viu Lisboa é como um pinto que morreu dentro do ovo". Cabo-verdiano. Também nos vemos pelos olhos dos outros, não é?

2 comentários:

Anónimo disse...

Finalmente encontro um meu 1º paradoxo:
-Multiplos pensamentos em poucas palavras.
-Tenho que deglutir, ruminar, e depois entender.
Não ponho de parte o facto de que desde que me conheço ser lento , pois tenho a doença da preguiça compulsiva.
O "desde que " não está a mais?
Até breve.

Ricardo António Alves disse...

Muito bom post, notável provérbio.