
É o sol poente o que ilumina e talha o rosto da Mulher da Cidade, riscando a giz a pungência da vontade do Homem. Na penumbra, já as mãos e o ângulo do colo o cingem, iniciam a deglutição. O Homem e a Mulher da Cidade sofrem e isso é bom.
No sol da aurora, mais tarde ou nem isso, a vertigem é a da alegria inebriante, não haverá ângulos de luz. O olhar será imenso e cristalino, a luz do sol será só e muito justamente a dócil matéria dos sorrisos. Dos sorrisos irreprimíveis próprios dos grandes amores, desses sorrisos que ninguém percebe como se formam e como acontecem. O Homem e a Mulher estarão felizes e isso é muito bom.
No céu obscurecido de uma tarde sábado de Outono, um dia obviamente sem sol, outro homem e outra mulher estiolam. Não é improvável que estiolem na ausência um do outro. Ela tem quarenta anos e está suspensa de tudo, dispensada até de deveres de geração, e sufoca em solidão. Ele tem quarenta anos e sufoca também, perdido de si, à procura de meias, no desconforto dos afins, na submissão das compras e dos objectos. Não sabem quanto tempo lhes resta. Não sabem o que há afinal para colher ainda, ou em geral. O homem e a mulher sofrem. Segunda-feira trocarão um olhar dilacerado, sabemos que sim. Trocarão. Que sol iluminará esse olhar?
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