28.11.05

Traditio

Concordo quase ilimitadamente com o que li no Canhoto sobre tradição, dica do Lutz (e assim sucessivamente).
Não é tecnicamente possível romper com a tradição; o máximo que se pode fazer é vesti-la do avesso quando se quer negar a tradição. Mas o nosso espírito não terá descanso nessa luta e a nossa criatividade ficará todo esse tempo amordaçada enquanto durar uma luta face a face com a tradição.
A tradição não se rompe, supera-se. Da mesma maneira que se rectifica uma trajectória ou corrige um desvio.
Os jovens não devem ser incentivados a seguir a tradição mas sim a não partir do princípio de que ela está errada ou obsoleta.
A afirmação de que a tradição está errada ou obsoleta só é válida como conclusão, nunca como pressuposto. Deve ser, creio, uma conclusão a que uma vida vivida com reflexão conduzirá inúmeras vezes, a passo crescente à medida que os anos passam.
Não é adequado opor a decisão racional à decisão segundo a tradição. A decisão segundo a tradição é ainda uma decisão racional, que se apoia na racionalidade do conteúdo da tradição, ou melhor, na convicção dessa racionalidade. Ou mais exactamente ainda, numa presunção de racionalidade quanto ao critério tradicional de decisão.
A maior parte das vezes, em todos os assuntos que não foram objecto de um escrutínio que tivesse conduzido à apreciação crítica de uma tradição, o momento decisivo para o fim de uma tradição é precisamente aquele em que conseguimos identificar, de entre todas as neutras naturalidades do mundo, que neste ou naquele ponto temos (vivemos) uma tradição. Casca que estamos sempre dispostos a largar.

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