
O primeiro motivo do meu problema com o mérito é que o mérito não se agarra ao DNA e, que eu saiba, a engenharia genética não anda a investigar na área, o que faz com que o meu problema esteja para durar, não conseguindo eu encontrar a chave de leitura racional de uma frase, de resto bonita, como esta que diz que "o privilégio é o mérito dos antepassados" (encontrada em melómana fuga à Arte da dita).
Como o mérito não se agarra ao DNA, ínclitos indivíduos geram com frequência verdadeiros trambolhos. Se esses ínclitos indivíduos conseguiram privilégios duradouros para a prole, teremos, pois, privilégios totalmente imerecidos por parte daqueles que os detêm no presente. Se a prole for de realmente boa cepa – ou mesmo empa – então terá renovado as condições de merecimento do privilégio, logo não haverá que falar em privilégio.
Mas com ou sem transmissão via DNA, um mérito de antepassado é, para o presente, um mérito-mais-que-passado e não constitui justificação de privilégios para a prole, de boa e má cepa e empa, nem mesmo se se pretendesse simplesmente, num jeito de simbolismo cultural, tomar a geração presente como ícone do valoroso antepassado. Numa cartilha de amor total ao indivíduo isso seria ainda insustentável pelo que envolve de limitação grave da sorte de cada novo indivíduo de tal geração; e não vale a pena vir dizer que o privilégio valeria mais que a liberdade assim perdida, pois a essa nunca aderirei eu, que subscrevo a tal cartilha.
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O segundo motivo do meu problema com o mérito é que o mérito como critério de distribuição das vantagens só me parece digno de incenso se for acompanhado de uma rigorosamente-equitativa-distribuição-natural-dos-talentos-socialmente-tidos-por- excelentes.
Por isso, como já aqui disse, ou o liberalismo de direita arranja artes de nos garantir uma eficácia eugénica marginal ou então estamos tramados nalguma futura eventual vida a acontecer na Utopia liberal, cabendo-nos aí triste sorte, minguada fatia, se não (re)nascermos belos, inteligentes, atléticos, enfim, virtuosos.
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O motivo terceiro e principal do meu problema com o mérito é que é uma palavra oca. Completamente oca, madrinha de todos os pleonasmos.
Merecimento segundo o mérito?! Ahh, pois, falamos de excelência. Mas excelência não é fazer muito bem feitinho tudo o que nos pomos a fazer. É fazer muito bem feitinho aquilo que é meritório fazer.
E assim temos a volta dada, do rabinho à boca da pescada. Não se chega lá - à ciência, em todos os sentidos, do que é meritório - sem sair da insistência na prioridade do mérito. É preciso primeiro obter o boneco do que é valoroso, formulá-lo substantivamente, ter um rascunho, um projecto, uma visão do indivíduo pleno na sua incrustação social.
E só depois se pode falar do que – assim, meritoriamente – para lá conduz. Mérito é, por si mesmo, palavra desmeritosa.
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Como qualquer problema que se tem com qualquer coisa, o meu problema com o mérito existe porque, como tantos outros, sucumbo ao encanto da palavra.
Palavra assim, tão esdrúxula, tão luxuriante... Curvas e contracurvas de sonoridades vocalizáveis - mÉrItuUu. Tão plasticamente sensual numa convocação sucessiva de lábios - mmmééé -, doce requebro longo na língua oferta - rii -, um beijo ritual a fechá-la - tooo... – de ricto a rito final do prazer. Dito em voz masculina é todo um universo sinestésico...
E tudo isto sem perder a compostura, pois pode prevaricar-se neste venal vocábulo com toda a discrição e a mais esplendorosamente assistida seriedade. As pessoas que o dizem muito, geralmente colocam bem a voz, são respeitáveis, cheiram bem com frequência e dizem-no com circunstância... mmmm ééé riii tttuuuu... que arrepio! que perdição.
9 comentários:
Pelo menos, na C.Civil, para ter algum mérito é preciso ter um grande figado!
Susana, tas a complicar... o principio do merito consiste em saber abrir a porta ao boss e deixa-lo passar sempre primeiro... :)
c.indico e mp-s: :)
Deixou-me sem palavras, cara Susana, para responder-lhe à altura.
Se o mérito é reconhecimento, o previlégio é reconhecimento cristalizado e artificialmente mantido.
Numa sociedade livre, o previlégio social não existe porque tem de ser conferido por alguém que controle ou planeie a sociedade...
...o seu discurso não se aplicaria também à palavra "previlégio"? >)
Por isso, como já aqui disse, ou o liberalismo de direita arranja artes de nos garantir uma eficácia eugénica marginal ou então estamos tramados nalguma futura eventual vida a acontecer na Utopia liberal, cabendo-nos aí triste sorte, minguada fatia, se não (re)nascermos belos, inteligentes, atléticos, enfim, virtuosos.***
Como sempre, a inversão dos argumentos. É porque somos diferentes que precisamos de liberadade não condicionada pelo Estado. Por essa liberdade, as pessoas são recompensadas segundo o valor que a comunidade lhes atribui. Há um reconhecimento do mérito.
O liberalismo não propõe qualquer solução eugénica a priori (isso é exclusivo de totalitarismos), ou à posteriori (socialismo mais vulgar). Qualquer das duas é iliberal porque só pode ser imposta por coacção.
From the fact that people are very different it follows that, if we treat them equally, the result must be inequality in their actual position, and the only way to place them in an equal position would be to treat them differently. Equality before the law and material equality are therefore not only different but are in conflict with each other; and we can achieve either the one or the other, but not both at the same time. – Friedrich von Hayek
PS - peço desculpa, os dois últimos posts eram meus
Caro AA, por ordem, mas só depois de lhe agradecer a visita:
A referência a privilégio foi feita a partir da frase que dota o privilégio de alguma justificação por ele ainda ser expressão do mérito, do mérito dos antepassados, frase esta que colhi na Arte da Fuga.
Na Utopia, concordo, não há lugar a privilégios, no sentido de vantagens injustamente obtidas ou detidas.
No entanto, basta verificar-se uma situação de desequilíbrio na capacidade de intervenção na sociedade, baseado em qualquer mecanismo de controlo social, para poder dar-se o caso de esmagamento do indivíduo. A questão não é tanto o Estado mas os Grupos (género que abriga aquele mas também as sociedades anónimas, para me reportar a um post recente da Arte da Fuga, a família, a vizinhança, etc; can't live with them, can't live without them...! e tudo está em saber como se protege o indivíduo dos abusos dos outros indivíduos mais fortes, sendo que qualquer grupo de fracos é mais forte que o mais forte solitário).
A minha referência à eugenia não contém qualquer inversão de argumentos mas é, de facto, um pouco rocambolesca porque corresponde a um modo irónico de me exprimir. O argumento visa sublinhar que o liberalismo (político-económico) de direita não está radicalmente comprometido com a igual dignidade (social) dos indivíduos. Os que não tiverem mérito, por inabilidades naturais, estariam muito desprotegidos numa sociedade organizada segundo esses princípios.
Todavia a questão principal é realmente a da vacuidade assombrosa das referências ao mérito no discurso político de direita corrente e, principalmente, alguma exasperação que me sobra de ver como toda uma Paideia, berço da categoria e de outras afins tais que excelência, anda dispensada na actual utilização da terminologia. Por isso digo no meu post que o mérito é a madrinha de todos os pleonasmos; é preciso parar e reflectir no que merece reconhecimento, porquê e qual reconhecimento.
Não entendi o sentido da citação do Hayek mas estou de acordo com ela. Aliás, é particularmente interessante que tenha trazido esse excerto que hoje, quando se discute o interesse, ou não, da discriminação positiva, contém um argumento claro a favor desta.
E, para terminar, pf continue a lançar para a blogosfera aqueles saborosos pedaços de música!
Cara Susana,
Esqueci-me de agradece os seus comentários no A Arte da Fuga.
Já lhe respondi, mas de imediato não posso fazer o mesmo aqui. Volto logo que possa!
Cara Susana,
Em resposta prometida:
1. O liberalismo entende que o Estado deve ter um papel preponderante na defesa das liberdades do indivíduo contra agressões de outrem. Este é um princípio basilar à sociedade.
Mas também entende que o Estado não deve participar nessas mesmas agressões. Ou seja, não atribuir previlégios que se tornam direitos adquiridos, não promover o proteccionismos nem monopólios nem corporativismos. Isto porque somos todos nós que pagamos. E porque o Estado é o grupo mais forte de todos porque, em última análise, tem o monopólio da violência.
2. O liberalismo não defende a igual dignidade social, estamos de acordo, porque tal é sujeito a arbitrariedades políticas que acabam por atropelar as oportunidades de uns em favor de outros. Defende a igual dignidade funcional perante a Lei.
A questão da protecção também não é central, porque entende que numa sociedade livre, existe o Estado para proteger de agressões, mas que o capitalismo não agride ninguém, por via dos princípios da Mão Invisível.
Ninguém nos obriga a comprar determinado produto ou a contratualizar determinado serviço. Fazêmo-lo porque achamos que vale o seu preço. Por vezes há poucas alternativas. É por isso que os mercados têm de ser o mais abertos quanto possível.
Pelo contrário, o Estado pode fazer produtos e serviços mais baratos, pagando-os com os nossos impostos, sem que tenhamos palavra a dizer. O Estado não se restringe a princípios de subsidiariedade, mas a intervencionismo extensivo a toda a Economia. E não há alternativa a um Estado que seja socialista.
3. Numa sociedade liberal, cada um tem o seu lugar segundo o seu valor, e há lugar para todos porque o acesso ao trabalho não é restringido por medidas que incentivam a inactividade e provocam desemprego, logo cada um é livre de procurar maximizar o seu bem-estar sem haver quem lhe diga o que é melhor para si...
4. Para que servirá parar e reflectir no que merece reconhecimento, porquê e qual reconhecimento na sua visão, Susana?
5. Hayek era frontalmente contra as liberdades positivas!
Do mesmo livro: "It is of the essence of the demand for equality before the law that people should be treated alike in spite of the fact that they are different."
6. Obrigado pela referência às nossas músicas, é bom saber que mais alguém as ouve! :)
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