27.11.05

Ainda os joelhos e as diferenças

Um joelho segundo Maria Teresa Horta é um joelho esculpido em palavras, que se beija com as palavras porque é um joelho que se beija também, ou melhor, sobretudo, fora das palavras.
Um joelho que se beija, segundo as palavras de Maria Teresa Horta, é um ponto de partida ou uma paragem num circuito intermédio de um percurso mais vasto, em que se dilui o joelho, a palavra, o beijo. Só com paixão se pode falar assim do trajecto de uma boca que beija um joelho.

Um joelho, segundo Rubens, é apenas mais um ponto qualquer de um circuito mais longo na exploração de um corpo, embora se trate de um apeadeiro certo. Os joelhos de Helena Fourment não são extraordinariamente bonitos; mas os joelhos de Helena Fourment são minuciosamente ponderados, são uma paragem no trajecto reflexivo sobre a carnação branca, luminosa, fresca - e elástica? e macia? e morna? e cheirosa? - de Helena Forment. Só com paixão o branco opalino e alguns tons de rosa quase improváveis de um corpo podem ser pintados assim.
Tacteados antes com a minúcia que causa o amor, patentemente marcados todos estes joelhos por semelhantes antecedentes, chegam a mim por via de sentidos diferentes: um joelho, oiço-o e situo-o, por palavras; os outros joelhos, vejo-os moldados na harmonia clara de uma imagem.
E fico estupefacta por não perceber bem a razão pela qual o joelho de Maria Teresa Horta tem carga erótica aparentemente mais intensa. É a tal diferença entre homens e mulheres que define preferencialmente de modo diferente os sentidos de ignição erótica, a visão para eles e a audição (de palavras!) para nós? É o olhar longamente fustigado pelas convenções do olhar que se habituou definitivamente ao faz-de-conta-que-não-está-lá ao cruzar-se com a amada de Rubens, apesar de ser tão explícita a razão primeira de um corpo ter assim uma textura? Não sei encontrar a diferença.

3 comentários:

JFC disse...

Brilhante paralelo entre um poema e o detalhe de uma grande pintura! Adorei! No entanto, na minha opinião, é superior a carga erótica do quadro.Talvez porque não me fixe no joelho, mas no todo, na magnífica sintese da técnica de Rubens, que se consuma nesta comovente homenagem à beleza da sua jovem mulher, Helena Fourment. A aparente carnalidade é toda ela o reflexo de um olhar saturado de paixão, alma, erotismo e refinada cultura. Oh! excessivo e fulgurante amor - como ele transparece nesta tela! E como nos faz sonhar: um dia ser amada por alguém capaz de tanta volúpia, tanta doçura e tanto impeto! Nunca o 'drapegio' negro contra a alvura da carne foi tão expressivo como nesta pintura, nunca o fundo - turvo bosque que vagamente adivinhamos - foi tão perturbante, nunca o olhar do modelo tão cúmplice! O que dizer deste homem que recitava Ovidio e do qual afirmavam os contemporâneos ser a pintura o menor dos seus talentos? Minha querida Susana, o que eu não dava (eu que tanto gosto de donuts!) por um só beijo de Rubens...um só...umzinho!

Susana Bês disse...

Obrigada, passarinha :)
mas... o que é um donut?
De Rubens, além do descarado descaramento, há ainda a registar essa vantagem de nunca haver carnes em demasia..., de permitir sempre uma fantasia de se estar maximamente elegante porque os modelos dele estão no IMC seguramente entre os 24 e os 27
... só por isto merece beijos!

JFC disse...

sim, eu estou longe do padrão de Rubens...:( falta-me ainda muita celulite, muitos refegos. A minha avó está sempre a dizer q sou um pau-de-virar-tripas...O Rubens teria gostado da minha avó, de mim não...Mas q me importa? Amo a beleza e a beleza é intemporalidade, não tem a ver nem com corpos esbeltos nem com refegos de celulite! Se n sabes o q são donuts toma lá:
http://www.donutking.com/
bjs