18.2.07

Do que diz

Joseph Beuys, Fato de feltro. 1970

Uma semana depois


Circunspecção... uma ova. Isto é muito mais importante que um pindérico golo da selecção nacional ou que a eleição de um partido político. É um assunto sobre o estatuto das cidadãs. Sobre polícia e ginecologia, sobre mutilação e sofrimento. Sobre prestação de contas. Sobre decisões de vida. Sobre o estatuto das mulheres, goste-se ou não da ideia (habituam-se num instantito, não tarda).
À Shyznogud. Reforçando os festejos.

Bloco de notas. Sperm sorting (e canja)


E se fosse possível separar os espermatozóides X dos Y e depois conceber selectivamente, por inseminação, um menino ou uma menina?
Uma menina de cinco anos que dissesse às amigas "quando for grande quero ter uma filha e hei-de chamar-lhe Susana" seria potencialmente uma megera imoral? O mundo desabaria, seria melhor ou ficaria no mesmo?
Na realidade, a técnica já existe e chama-se sperm sorting.
Becker e Posner discorrem com luz seminal sobre o tema. Não vêem basicamente nenhum problema, talvez mesmo nenhuma grande novidade.
Em vez da mocha nota de pânico sottovoce, cominando porrada, degredo ou os infernos, em vez das palavras mitigadas pelo-sim-pelo-não, virtude confundida com canja...

17.2.07

Do diz que disse

Donna Rosenthal, He Said He'd Love Me Forever; She Said She'd Always Belong to Me. 2004

Coisas que valem a pena

If you've found something you really like to do - say write beautiful sentences - not because of the possible benefits to the world of doing it, but because doing it brings you the satisfaction and sense of completeness nothing else can, then do it at the highest level of performance you are capable of, and leave the world and its problems to others. This is a lesson I have preached before in these columns when the subject was teaching, and it is a lesson that can be applied, I believe, to any project that offers as a prime reason for prosecuting it the pleasure, a wholly internal pleasure, of its own accomplishment. And if your project doesn't offer that pleasure (perhaps among others) you might want to think again about your commitment to it.

Objecção certificada

Uma perversão dos tempos que correm quase tão daninha como a universalidade do direito de voto, recentemente revisitada, é aquela leviandade com que se coloca à disposição de qualquer um, numa lógica de igualdades distribuídas à toa, a possibilidade de tomar decisões de natureza pessoal, como se todos os indivíduos dispusessem do background moral, do amadurecimento e da informação necessários para uma decisão ponderada e esclarecida.
Sói lembrar que não. A natureza humana é, infelizmente, assaz imperfeita. Alguns espíritos menos robustos, oh quantos!, claudicam sem rebuço ao primeiro impulso egoísta ou fútil. Outros, outros tantos!, são medularmente incapazes, seja por motivos familiares, seja por herança étnica e cultural, de assimilar de modo responsável qualquer requinte civilizacional. Outros, alguns tantos!, atravessam períodos de turbulência pessoal, como é próprio da vida, que inopidamente comprometem o gozo pleno das capacidades morais.
Acriteriosamente atribuídas e largadas ao desbarato, as liberdades de decisão - precípuos poderes políticos, ainda que prima facie privados - obram para que, enfraquecida já pelo consumo, pelas taxas de divórcio e pela vulgaridade da vida hodierna, a nossa sociedade paulatina e inexoravelmente sucumba às mãos de abortistas, homossexuais, mulheres com buço e objectores de consciência.
A derrocada pode ser prevenida, como testemunha o Lutz, portador de uma objecção de consciência certificada, que quis vir partilhar connosco nesta hora inglória. Atente-se no que ele diz pois não estamos apenas perante uma consciência certificada (como se isso ainda fosse pouco), mas perante uma consciência certificada lá fora!

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos"

Diana Blok [clic!]

Todos?! Apre, que exagero!
Uma achega ao eleitor-pagador, cortesia da casa.

Bloco de notas. Trolley, Thompson, Anscombe outra vez

Um para cinco, cinco para um. E eu no meio.

(prá troca)

16.2.07

No era això, companys, no era això

Não se pode ser pragmático (concedendo conveniente sentido ao maltratado termo) e recto, em simultâneo, a maior parte das vezes.
O progresso representado pelo resultado do referendo foi enorme para as mulheres, não me canso de o dizer e de me congratular.
Mas, na senda da lamacenta proposição da questão de consciência, à Guterres, que só serviu para baralhar ainda mais toda a gente (que questão ética não envolve questões de consciência? que questão deve ser ou deixar de ser assunto legal só por envolver a consciência?) o partido socialista voltou a contribuir pouco para o progresso da consciência ética e cívica.
A linha de defesa do SIM, que insisto em chamar táctica, do isto é só despenalização e não é para discutir mais nada, shiu, estejam caladinhos será habilidosa mas foi pouco transparente.
A ideia de que o povo não está em condições de saber a verdade, é um engano de cínicos. Estes é que podem não estar preparados para dizer tudo.
O facto de ser tido por desastroso discutir em aberto o que estava em causa valorativamente mostra como a questão andou totalmente negligenciada deste 1998 - entenda-se, entregue sem qualquer resistência à opus/igreja, ao exercício desse controlo da sexualidade humana como ferramenta insidiosa de influência social. Perante uma classe política esmagadoramente masculina e dominada, sem excepção, por homens, não se consegue sentir grande surpresa com semelhante desleixo.
Não era, pois não, não era, em três ou quatro semanas que se recuperava o atraso.
E houve ainda outros custos: o contributo negativo quanto à disseminação de uma ideia de racionalidade do sistema penal e, por via dele, das instituições da própria sociedade democrática. Se não se discutiu abertamente que na despenalização da IVG iria implicada uma prevalência da autodeterminação da mulher sobre a protecção da vida intra-uterina, se era tudo uma questão de desgraçadas, então esse bom povo que foi poupado à discussão bem pode concluir que todo o catálogo penal, do furto ao infanticídio, todo o sistema da coacção estatal, tudo isso fica candidato a semelhante relativização. Não é disto que andamos a precisar por estas bandas, mas sim do contrário.
Pessoalmente acredito que o bom povo é mais avançado que os cínicos da política. Por uma questão (agora sim) pragmática. Acredito que foi por isso mesmo que o SIM ganhou.

Dos bons serviços

...

- So, how do you like it?
- It looks quite fine to me.
...

Aconselhamento e informação

Alguns dos motivos determinantes para uma decisão de IVG baseiam-se em circunstâncias que são representadas imperfeitamente por quem se decide assim: há mais apoio social ou económico ou institucional do que a pessoa representa, a pessoa está menos só e desprotegida do que pensa que está.
Parece-me oportuno e adequado oferecer esta informação a quem se propõe interromper a gravidez pelo que isso contribui para a formação de uma vontade esclarecida de uma decisão tão irremediável.
Mas, melhor ainda, esta informação devia estar disponível em espaço aberto, entrar na massa da consciência colectiva, circular com a mesma importância com que circula a data para a apresentação de declarações de IRS e a localização das repartições de finanças. Devia ir para as salas de aulas, para a televisão, para os placards das igrejas, juntamente com a informação sobre controlo da fertilidade.

Viva Câncio

Muito, muito bem!

É necessário dizer isso mesmo. Isso é exactamente o que é necessário dizer.
link via Womenagetrois

15.2.07

Querido, estou com o período

O período - digo, o de reflexão - para as situações de fecúndia geral cumpre função. Não é tanto a de mandar pensar melhor - olhe lá, a menina, minha senhora, sua tontinha, volte para caselas e regresse depois, pense lá um pedacinho seu óvulozito guloso com mais olhos que barriga. É claro que não é isso. Um tonto não pensa melhor dois dias do que um, mesmo que comece a pensar só quando lhe sopram o apito. E quem diz um tonto, diz praticamente uma tontinha.
É mais por uma questão de respeito pela boa ordem das coisas, que faz de cada óvulo fecundado e seus anexos logísticos uma possessão de além-mar em regime de protectorado. Oh filha, a levares a tua avante, é porque a gente deixa, é porque a gente condescende. Lá por teres cartão de eleitor, não julgues que decides; e tens sorte, alembra-te bem, por não te mandarmos para a cadeia; 'pera aí primeiro, que as abébias já foram. Um padre-nosso e três avés-marias, duas carimbadelas e uma ficha de espera. A seguinte. A menina é menor, louca ou cidadã relapsa e trouxe o paizinho? Ahh, tem cartão de eleitor?! Pois olha filha, a levares a tua avante é porque a gente condescende, é porque a gente deixa...

14.2.07

O SIM do dia seguinte

Klee, A disputa. 1929

Não é demais sublinhar que a vitória do SIM no referendo traz um progresso notável; que, seja mesmo cerceadamente, a possibilidade de a IVG deixar de ser considerada crime é de grande importância pelo impacto real nas pessoas concretas directamente atingidas pela proibição penal que até agora existiu, e ainda vigora, entre nós.
Nenhuma divergência fundamental pode razoavelmente ensombrar a visão clara de que a brutalidade da proscrição do sistema de cuidados de saúde, somada à brutalidade da incriminação legal, somada à brutalidade da armadilha biológica da reprodução vivípara do ponto de vista de um indivíduo quanto ao mais feito autonomia, risca no mapa das opções políticas um território de obscenidade cívica e que qualquer centímetro removido desse terreno de horror merece inúmeros sacrifícios e compromissos.
Mas ao ter-se prescindido da discussão ética e valorativa da legitimidade, ou não, da decisão de inviabilizar a gestação - tacticamente anatematizada -, adiou-se, seguramente para um cenário real menos opressivo, o debate sobre o que está verdadeiramente em jogo e que agora e sempre voltará a assomar, enquanto algum aspecto do regime legal se encontrar sob construção: se, sim ou não, cada mulher fecunda integra o património biológico da comunidade, se alguém fértil é objecto, ainda que provisório, de poderes exercidos pela comunidade, de tal modo que as decisões sobre si mesma (e não apenas sobre aquele item curiosa, mas não surpreendentemente, menor que se confina linguisticamente a uma barriga ou um corpo) deixam de se encontrar sob o princípio aplicável à generalidade (?) dos indivíduos, o princípio basilar da construção da nossa identidade, o da livre autodeterminação.
E se sim, como então.
E se não, como assim.

Fiz um trato comigo mesma durante a campanha do referendo: não abandonar o assunto, retomá-lo logo que a minha maladroitesse pragmática (a humildade é falsa e a expressão, irónica, pois acredito que uma boa teoria é o que há de mais prático e económico..., mas reconheço a sagacidade alheia) não provocasse danos a uma causa maior, como a que comecei por referir. É muito provável, por isso, que este espaço venha a ficar mais saturado de apontamentos sobre o que a reprodução vivípara faz realmente à condição humana. Aviso às estimadas visitas, que graciosamente por aí navegam.
Este post absorve a imagem publicada ontem, sem palavras e sem título.

12.2.07

Quase prova de vida no planeta

Alguém passou por aqui e viu isto. Depois levou-o para ali e, por artes, transformou-o nisto. Agradeço, de verosimilhança reforçada.

Resultados do referendo.

Durante os comentários da noite, na RTP1, MRS lépido a pular o fosso da derrota para logo se colocar de novo a cavalo na crista (reparo que a expressão, no contexto, não é feliz mas fica assim mesmo). As faces um pouco mais baças, o número já seria esperado, só não se sabia qual seria.
Ou o quase imperceptível ricto facial de AV, no sorriso que deu a sede (no sentido de locus) da verdadeira vitória da noite: o desenho táctico da campanha e a discreta firmeza com que ele foi executado. Um júbilo como o do patologista forense.
Ribeiro e Castro, pesado na pesada declaração política, de expressão franzida, envolto em manchas cor-de-rosa incongruentes, a dar sinais de que o Portugal profundo do país real ainda está de fora do jogo.
Uma senhora magrinha do SIM cuja fragilidade e palidez me mantêm pensativa quando a imagino ao lado da tónica senhora malva que ralhou pelos resultados, no painel televisivo dos negacionistas - como se o caminho da liberdade tivesse de estar do lado de fora, no que é sombrio e regressivo, mutilado e triste.
A impaciência de esperar pela declaração dos vencidos: a da ICAR, que não vai chegar porque a opus é tão rápida como o Marcelo e já está por aí a tentar apanhar todas as pontas que ameaçam soltar-se.
Os rapazes das bandeiras que regressam da refrega, prontos a assobiar para o lado.
A esperança de se romper o gorduroso âmnio da culpa de si como hino nacional.
O brilho histórico e civilizacional que uma dúzia de pontos percentuais consegue irradiar.

10.2.07

O mundo natural

Eggleston. [clic!]

Falou-se aqui em tempos de joelhos - os amados por Rubens, da (ex-citando à socapa) anatomicamente apetitosa Helena, o do iter da língua sáfica mas filofálica (digo-o da linha de palavra mas não do fio da saliva) de uma Maria. Hoje digo que os joelhos caem por terra e que quando isso acontece não é geralmente bom sinal. Estará alguém a dar-se por vencido ou a implorar; roja-se aproximando-se mais do solo, da terra que o há-de consumir, afasta-se do sol, da altura da colina que avista e do sumamente cénico vento pela face, angulado em contre-plongé, tudo isso renegado para todo o sempre e amén. Ou então os joelhos são areados e postos ao sol, dados à brisa do caminho. Nesse caso não é tão relevante que os objectos empalideçam em volta, multiplicando-se por relicários pardos caóticos, que a maré da terra que nos come vivos e de olhos abertos avance, que as algias venham já por conta do desmanchar dos corpos, a desmantelar, a deglutir. Juro.

Sermos assim tão queridas às vezes até custa a crer (quanto mais a ver)

Alvarez Bravo [clic!]

Qualquer pessoa medianamente atenta não demora a perceber que há dois homens verdadeiros nesta fotografia. O que fazem não é muito relevante. Não se quer muito saber deles. Fazem o que fazem. Chapéu ou boné, furo abaixo, furo acima, aplica o esforço na cara, no braço, na bota, no chão, é como quiseres. Pode haver um desnível, uma hierarquia, coisa de quantidades e equilíbrios. Uma homenagem aos homens verdadeiros, essenciais, simples e nítidos. Apreensíveis. Fala-se de condição humana, mesmo, a propósito de homens como estes, verdadeiros e anódinos assim. Saúdo-a, a essa condição humana. Mulheres terão sido representadas na fotografia mas tenho dificuldade em identificá-las. Parece que as de cima haveriam de ser as mulheres verdadeiras. Ou a de baixo, essa sim real. Ou as de cima outra vez, para lá da fotografia dentro da fotografia, como quem vai direita à alma, apontada à verdade. Será coisa da condição feminina. Saúdo a condição humana dos homens verdadeiros, reais.

8.2.07

SIM

Afinal gostei da campanha. De ambos os lados. Pelo que saíu de ambos os lados: os argumentos do NÃO (um pus retrógrado e insensível, empertigado e balofo, que é bom que se exprima) e várias pessoas do SIM (pensantes, envolvidas, generosas).
Apesar disso, vai-se e volta-se, corre-se mundo e, no regresso, continuamos a aquecer sem dar muito por isso, invadidos por uma tristeza global.

31.1.07

Consenso sobre as belas proporções



As belas proporções são belas e por isso nos orgulhamos delas.
Não faz mal que seja por causa do orgulho - seja um brio, uma tremura - que inspiram, por serem assim belas, que são verdadeiramente de tal modo belas.

21.1.07

Em cima, por debaixo, por trás, ao lado

Ralph Humphrey, South Orange. 1981-82

O André Carapinha e a Sílvia Sousa apresentam um aforismo inspirado:
Apenso aqui duas subvariantes:
1.a. Por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Pela frente dessa grande mulher não costuma haver nada.
1.b. Por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher (ponto final). Por detrás de uma grande mulher estará sempre alguém ... (reticências: em cima, por debaixo, ao lado )
[NOTA: afinei 1.b.]

17.1.07

That´s all folks! (longamente aditado)

Gerhard Richter, Helen. 1963
Por aqui dá-se por concluída a instalação argumentícia teórico-fundamentalista e nihilpragmatática da IVG. A todos os que me sinalizaram, obrigada por terem detectado o meu esforço para tocar nos pontos decisivos. A todos os que me tresleram, obrigada por me permitirem identificar modos expressivos susceptíveis de melhoramento. A todos os que me vilipendiaram, obrigada pela inequívoca confirmação da minha pontaria.
Siga, pf, a campanha com os seus narizinhos de cera.

Aditamentos:
1 – O PACOTE
Por ordem cronológica, do post mais recente para o mais antigo, o "pacote postal" em questão é constituído por:
- Mulheres e tubos de ensaio - embriões há muitos e há embriões de primeira e de segunda; a posse pública do corpo fecundo
- A importância de não se chamar Santoro ou os paradoxos da-vid'-umana - absurdos da posse pública do corpo fecundo; embriões há realmente muitos
- "Fazer um aborto" - é uma expressão corrente; apesar do esforço simbólico em sentido contrário, as pessoas sabem que fazer um aborto não tem mal; o corpo fecundo reclama-se
- Filhos são entidades únicas - parâmetros do infortúnio (ou de felicidade)
- Embriões são entidades descartáveis - embriões há muitos, mas mesmo muitos, mesmo
- Muchas gracias - ou o "sim" a reboque da argumentação do "não"
- Entidades descartáveis - (Id)entidades - (obiter dictum); da vid'-umana; coisas da individuação (indivíduos não há muitos, há só um)
- Saddam e o aborto. Um exercício cru - da vid'-umana; a tristeza é a emoção com que se reage ao infortúnio, enquanto a repugnância é a emoção com que se assinala o mal.

2- A CONCLUSÃO
Dei por concluída (tanto quanto avisto) a argumentação sobre o assunto por dois motivos: embora eu considere que os meus pontos de vista sobre a questão são partilhados efectivamente pela maioria das pessoas, não obstante a espessa camada simbólica de insistente re-enunciação e reformulação por parte da ICAR&Associados (aqui recordo Boaventura Sousa Santos, mencionando a perícia desse organismo em séculos e séculos de racionalização do absurdo), estou perfeitamente ciente de que o registo expositivo em que os apresento está longe de corresponder a uma defesa low profile do "sim", que vem sendo veementemente apresentada pelos gurus da táctica como condição de vitória no referendo. Inclino-me perante quem sabe. Entretanto, o que queria dizer, está dito. Limito-me à decisão de não me repetir. E o que quis dizer, fica dito.

3- OS AGRADECIMENTOS EM ESPÉCIE
Agradeço em particular à Sara Monteiro, comentadora no Quase em Português, no Timshel e no Dragoscópio - sempre airosa, fresca e perfumada, é certo, mesmo quando letal, um autêntico Bond feminino a quem não falta um viçoso pastor e um ciciar pigmaliónico - várias intervenções rectas, benevolentes e corajosas.
Assinalaram os esforços argumentativos de um ou mais posts deste pacote, com links nos seus blogues, e por isso lhes agradeço,
o Lutz (bis), a Shyznogud (bis), o Luís, a MIP, o Henrique, o JPN e a a Srp; também assinalaram, manifestando discordância, o Timshel, o Fernando (bis) e o Pedro.
O "não" teve também a amabilidade de reagir mais visceralmente. O Orlando comparou-me a um exquisite carpaccio de cavalo; o Dragão defendeu-se denodadamente, embora um pouco atabalhoado, desta Barbie explosiva que subscreve, ao som das interjeições do Carlos. Da parte dos comentadores do "não" em modo de desmando, a fartura vai dos "teóricos de vão de escada em supetões indignados" (obrigada João!) a criativos de estimulantes jogos de incidência anatómica, que anseio por experimentar.

15.1.07

Mulheres e tubos de ensaio

Ao elevar-se a questão do estatuto do embrião a elemento central na discussão da legitimidade do aborto faz-se de conta que se esquece, ou esquece-se mesmo, que hoje em dia os embriões humanos ocorrem em dois meios: no corpo humano e em meio laboratorial?

Os laboratórios congelam embriões excedentários, assim adiando o momento da sua inviabilidade. Entre a decisão laboratorial de congelar e a decisão natural do desmancho da gravidez não há diferença de monta do ponto de vista do futuro do embrião - no segundo caso, fica logo inviabilizado; no primeiro caso, é elevadíssima a probabilidade de vir a acontecer-lhe o mesmo.
Por outro lado, descartar embriões - imediatamente ou a prazo, congelando-os - nos laboratórios é uma decisão que tem pouco ou nenhum significado existencial para o seu autor. Ninguém vai preso por isso.
Em contrapartida, permitir, ou não, a continuação da gravidez é uma decisão (visceralmente) existencial. Mas pode-se ir presa por isso.
Centrar a questão ética suscitada pelo aborto numa pretensa defesa da vida humana extensível à protecção dos embriões demonstra claras opções quanto à valia ética desses receptáculos em nada superiores a tubos de ensaio, excepto para efeito de censura, as mulheres férteis.
A pergunta não é "quando está legitimada uma mulher a abortar?"
A pergunta é "é legítimo negar às mulheres a prerrogativa de interromperem uma gravidez indesejada?"

11.1.07

O que se faz #9. Estamos

F.W. Murnau. Der letzte Mann. 1924.

A importância de não se chamar Santoro ou Os paradoxos da-vid'-umana

Esta aqui era a Gerri Santoro, tal como encontrada pela polícia, num hotel, há uns quarenta anos. Uma coisa boa dos nossos tempos, meu caro, é que a tua mãe, a tua irmã, a tua mulher, a tua filha, as tuas pessoas, não estão já sujeitas a isto na mesma medida da infortunada Gerri.
Mesmo que tenham o azar de não lhes calhar um dos 20% a 75% de zigotos ou embriões que vão para melhor ainda mais discretamente do que vieram (a cifra do fim, só para quarentonas, é verdade), podem conseguir autorização para abortar se o feto tiver malformações ou se tiverem sido violadas. Porquê?

9.1.07

"Fazer um aborto"


(pedindo licencinha ao Luís para o uso da imagem, neste post que é só meu)


Enquanto fui estudante, tanto no liceu, como na faculdade, várias colegas minhas engravidaram indesejadamente, o que, tanto quanto recordo, era recebido com um sentimento de calamidade, de naufrágio da vida que se pensava ainda viver. Pode-se dizer que isso acontecia às mais afoitas, às menos confiantes em si mesmas, às mais irresponsáveis. Diga-se, se se quiser. Seriam, também, muito férteis, isso sim, vivendo o pico da condição de corpo fecundo.
Fazendo uma breve e rápida conta por alto, vêm-me à memória uns quinze a vinte abortos, uns dois ou três casamentos, uma maternidade apadrinhada pela família da mãe.
Não me lembro em nenhum caso de qualquer espécie de dúvida quanto à legitimidade da decisão de abortar. Nunca passou de qualquer coisa como decidir, sim ou não, remover as amígdalas, em condições de angústia e medo, nas conversas entre confidentes e amigas. A única vez que me lembro de ter sido invocada uma "objecção moral" para a solução foi no caso de uma flausina com ambições nupciais que quis usar a oportunidade para forçar o enlace (expediente vulgaríssimo, nos dois sentidos).
Por isso tudo fiquei muito surpreendida quando um dia soube que o que forçava a clandestinidade do aborto não era a ignomínia padreca de ter alguma coisa a ver com sexo, mas a própria intervenção do Estado. Como se dissesse: você aí, essas amígdalas que traz na garganta, só com deferimento da Autoridade as pode mandar retirar. Uma intervenção autoritária e anómala, requisitando o corpo em que as pessoas vivem, contrafactualmente às circunstâncias físicas do existir, ao arrepio do que cada uma sabe sobre si mesma e - é de sublinhar - dificilmente conjugável com a cartilha democrática da dignidade e autodeterminação do indivíduo.
"Fazer um aborto" é uma expressão corrente, que se pronuncia a maior parte das vezes sem qualquer timbre valorativo. Como quem fala de funções corporais. O facto de haver uma lei a dizer que não é assim significa que, apesar da correnteza, se pretende ver consagrado um estatuto de cidadania ad hoc para quem vive nos corpos cujas entranhas são nidificáveis reprodutivamente. Esses corpos seriam, pois, objecto de expropriação legal.
Contudo, "fazer um aborto" é uma expressão corrente. Discutir a legitimidade do aborto é como discutir a legitimidade de funções corporais. A legitimidade da proibição legal é que tem de ser demonstrada.

8.1.07

Filhos são entidades únicas

Mihoko Ogaki, vor dem anfang - nach dem ende #1. 2006
Filhos são entidades únicas, tendencialmente absolutas, que nidificam no nosso coração.

7.1.07

Embriões são entidades descartáveis

Um embrião é uma coisa descartável, tendencialmente excessiva, que eventualmente nidifica nas entranhas de uma pessoa fértil.

Muchas gracias

- Os meus impostos para financiar desmanchos a essas gajas? Não, obrigada.
- Vá lá, sim, por favor, vá lá (bá lá, blá blá blá...)*
- Não, obrigada. Prefiro ir a Espanha.




*Blá blá elas são coitadinhas blá blá, nós somos bonzinhos, blá blá, nós também achamos que há coisas sagradas blá blá a-vid'-umana blá blá é uma coisa sagrada blá blá blá é só por causa de blá blá blá

2.1.07

2007

Meret Oppenheim, Object. 1936

Resta prosseguir caminho. Por esse intervalo tectónico entre o deus de Espinoza* e o livre arbítrio de Schopenhauer**.

31.12.06

looking forward

Elizabeth Murray. Dis Pair. 1989-90

Olho em frente por amanhã, deixando para trás, para sempre, todas as penúrias. Amanhã tudo o que existe de bom continuará a existir e tudo o que não presta terá mirrado naturalmente até desaparecer sem resíduos. O ar será confortável na cara e no peito, os olhos estarão brilhantes sempre. Os que nos amam amar-nos-ão ainda mais e nós a eles, ondas amáveis e largas acudirão a banhar-nos, até ao ponto exacto em que desejemos trocar de bonança, sem nunca desafinar a harmonia. A desarrumação terá um ângulo novo, desvendando o gáudio afinal inocente e imaculado de inteligências fecundas. É escusado lembrar que os conceitos de arestas cortantes ou exalando enxofres, sangue e urina, sejam eles de chagas a devastação polar, passarão a rolar polidos com um chilreio de espanta-diabos a uma distância lúdica (e já não de segurança). Os portugueses com mais de vinte e cinco anos terão em média menos seis quilos de espessura e franzirão o sobrolho apenas na utilização do fio dental propriamente dito, ou não, sendo esse sério caso. As mentes luminosas e reconfortantes que eu visito na blogosfera continuarão a permitir que eu me alimente nos seus espíritos. Algumas pessoas que vêm aqui de vez em quando deixarão ainda atrás dos seus clics esta grata dúvida de que, se calhar, existimos de verdade e, afinal, andamos todos por aí, não é que andamos mesmo?!

30.12.06

Maçadora

Ainda acho a pena de morte uma grande maçada, talvez ainda maior. Saddam lá foi executado, exemplarmente: os carrascos vêm da banda desenhada, com a armadura moral do homem aranha, a corda é vulgar e orgânica, a morte foi rápida, o executado parece um cão. Saddam interpretou magnificamente o papel do mau de uma história reles em que o bem vence para sempre e isso não tem o mínimo valor.

26.12.06

Em tempo


Fizeram-lhe ver que desejar a alguém, como gesto superlativo, a concretização dos seus desejos é como condenar essa pessoa à asfixia pelo excesso de si mesma, ao definhamento pela carência de crise. Que quando se quer fazer um desejo eloquente e grandioso é necessário falar de novos sonhos, de outras esperanças, ainda e sempre radiosas. Onde encontrar agora um símbolo gráfico, um ícone desta ideia, que possa ficar bem ao lado da inscrição I am not your love, I am your lover (ou seria I am your love though you are my lover...) ?

24.12.06

Postal de natal

I wish you a merry xmas
i wish you a merry xmas
i wish you a merry xmas
and
(again!)
i wish you a merry xmas
i wish you a merry xmas
i wish you a merry xmas
and
a happy new... (again!!)
i wish you a merry xmas
i wish you a merry xmas
i wish you a merry xmas
and ... (yes yes yes) a...

Bruce Weber

23.12.06

Entidades descartáveis


Se um embrião é, por natureza, uma entidade descartável - e será, assim, se assim se quiser, um caso de vida humana descartável, so is life - profusamente sustentada por tantos óvulos e tantos espermatozóides em constante reboliço, que andam por aí para isso mesmo, a identidade ainda o é muito mais. Com a mínima diferença de que não o é por natureza. Troca-se o objecto amado, deliquesce-se o sujeito, um nome dito outramente - será o meu? soa diferente, quem serei? Descartável esse eu que vive do nome, e já nem falo dos números de cidadanias e pertenças que um dia, dizem-no ministros, serão únicos - o que para o efeito pouco importa. Já nem falo de ruas e andares, de endereços electrónicos, de ícones e santinhos, etiquetas de casacos. Nem do cartão de eleitor, nem do nome, de novo, declamado por um oficial de justiça num claustro que também pode ser de hospital, para receber uma pena ou uma pica. Há quem se tome pela sua identidade, isto é, pelas suas identidades. Descartáveis. Há um país inteiro a boiar nisto. Como se pode desejar bom natal?

10.12.06

O cravo e a ferradura

Quando se dá desconto ao que diz o Jardim, o que é que não está a ser levado a sério? O Jardim ou as instituições da democracia? E porquê?

O peso das culpas ligeiras


Por causa das novas regras sobre segurança nos aeroportos, passou a andar exposto ao mundo o afundamento sem jeito do pequeno presente do regresso, sucumbindo num dos cantos do saco de plástico, sempre grande e sem forma mas agora também transparente, das lojas duty (but not guilty) free.

8.12.06

Sobre rapazes de mentes magníficas muitos anos depois

Pablo Picasso. Maquette "Minotaure". 1933.
Alguns rapazes adoptam figuras e formas bizarras e é sobre elas que depois transportam os sinais das suas mentes magníficas. Juntam-se, por exemplo, três ou quatro. Ajuntam-se em torno de uma roda de barriguinhas redondas, que eles montam na giga, gaiatos ainda e prontos à bravata, às cavalitas sobre o que outrora teriam sido colunas, numa nuvem do tropel contínuo dessas mentes que os possuem e velam por eles e continuam a brilhar. Os olhos lumem, tal e qual como antes, ou mais agudos ainda. Interceda de alguma nova dobra ou pela liana de pêlo surreal um fumo ligeiro, um véu humilde, uma discreta declaração de que o corço, o potro fúlvido já não está lá, não lhes faz diferença de monta. É guerra que não perdem. O animal partiu mas o esplendor ainda é o aroma alterno aos cheiros adocicados já tão pouco vegetais. Seja sapuda e vermelha a língua, brilhe, empastelem-se as palavras, um cicio não eréctil esborrache as sílabas moles de frases encurtadas, babem-se pelas meninas e passem a nu o strip das amadurecidas obtusamente em denial, são ainda belos animais mansos em pasto. A ternura lúbrica que inspiram.

1.12.06

Accroché à l'ombre

André Breton. Poem-Object. December 1941
Poderia dizer:
ces terrains vastes
de mon coeur maison
vaincue à la lune où j'erre
et object de poème
Poderia dizer só:
maison de l'ombre
j'erre mon coeur.
Poderia mesmo dizer apenas:
accrochée à l'ombre
É provável que em todos estes casos se tratasse ainda de dizer qualquer outra coisa igualmente óbvia.

11.11.06

Inconfidência

Edward Ruscha, Jumbo. 1986

Um sentido insistido. Basta isso. É só isso. É muito insistir no sentido.

Ao Luís.

6.11.06

Saddam e o aborto. Um exercício cru

Considerem-se as seguintes possibilidades:

1. Sim à pena de morte de Saddam e sim ao aborto.
2. Sim à pena de morte de Saddam e não ao aborto.
3. Não à pena de morte de Saddam e sim ao aborto.
4. Não à pena de morte de Saddam e não ao aborto.

O "sim" só deve ser escolhido se a convicção de legitimidade da acção é tão profunda que se actuaria em execução do acto em questão (aplicar a pena de enforcamento ou submeter-se a um aborto ou participar na decisão, consoante se seja mulher ou homem).
Por "aborto" entende-se a interrupção de uma gravidez apenas durante a fase embrionária.
3. comporta uma muito crua implicação: é mais repugnante matar um facínora que inviabilizar um projecto de filho.
Podia dar-lhe uma volta e dizer que é mais repugnante tirar a vida a um homem que eliminar um mero embrião, mas isso obscureceria as coisas. O que é interessante, para quem subscreve 3., como eu, é haver-se com a crueza da escolha.
Essa crueza não me convida a ir acomodar-me em 4., visto que o critério de 4. não é mais claro (não há consistência numa posição de defesa absoluta da "vida", nem mesmo para quem não mata uma mosca, basta que coma peixe, use sapatos de pele, pise uma minhoca ou arranque da terra uma cenoura).
Essa crueza permite ainda reparar que seria muito mais triste inviabilizar um projecto de filho que saber da (repugnante) morte de um facínora. Mas isso é assim apenas porque a tristeza é a emoção com que se reage ao infortúnio, enquanto a repugnância é a emoção com que se assinala o mal.

Bloco de notas. Poligamia

Becker v. Posner

Para segundas núpcias.

2.9.06

Um, dois, três... experiência (da vida?)


O pai disse-lhe "não é o fim do mundo, não é o fim do mundo".
O outro pai disse-lhe "tudo se resolve, tudo se resolve".
A mãe mantinha-se jovem. A mãe disse "que horror".

28.8.06

Estocadas, penetrações e lanças gloriosas

Com a energia e o vigor destes joelhos, peixes, gargantas, elmos e papoilas só tenho lido ultimamente literatura erótica. Se é que tenho lido. Belos, virtuosos e deslumbrantes homens no ... bl_g_ _x_st_.

27.8.06

Passa-me a salada


A vantagem de se ver o telejornal é que a informação já vem praticamente toda processada, tanto no aspecto em que vem desossada, como no aspecto em que já vem por ordem de importância. Não me escapasse a atenção para o secundário, teria sido possível ficar a saber ontem que o Futebol (Louvado-seja) assim, e o Futebol (Louvado-seja-nas-alturas) assado, e a Liga (Santíssima) cozido, e a Federação (Os-nossos-corações-estão-ao-alto) assado e muitíssimos pormenores e sensibilidades sobre isto, que questionam os fundamentos da civilização. Isto deu tempo para passar do aperitivo à sopa e da sopa à parte dos lombinhos de pescada, que se compram já sem espinhas e sem pele. Nos fait-divers, e à sobremesa, ao terminar o postre lácteo, também soube que uma prostituta apareceu morta numa rua de lisboa e, segundo uma entrevistada, a prostituta, que era uma prostituta, até nem costumava andar por ali àquelas horas na sua vida de prostituta e a menina das notícias confirmou qualquer coisa que voltou a requerer a utilização repetida do termo designativo, a saber, prostituta. Ao café já eu sabia que quem tiver Cães já pode proporcionar-lhes Fisioterapia. Nem é preciso palitar os dentes.

19.8.06

Sweet Fifteen, Never Kissed Before (Anymore) - Sweet Sour Fifteen - SS 15

Christoph Schmidberger, Untitled. 2005 Predominante a compaixão, lamenta-se o homem que viveu o peso silente de opções que eram naqueles dias tão banalmente prováveis e fáceis e tentadoras quão banal é, quase sempre, o acto leviano, cúpido, maldoso, rapace.
Predominando a mágoa, predominando a fidelidade, predominante a raiva pelo sofrimento inútil, o homem não tem redenção, nem desculpa.
Lamento o homem. Se tivesse sabido hoje que ele tinha sido o assassino do meu pai, do meu filho, do meu amigo, dos meus, não saberia encontrar apaziguamento para a minha raiva, talvez lhe arrancasse eu própria os olhos. A raiva em que se transforma uma mágoa assim é justa; bem como o nojo, que é uma forma de raiva surda.
A raiva justa, todavia, desculpa-se, compreende-se; em nenhum momento se confunde com um critério racional de agir, de ajuizar. A não ser que se trate de agir ou ajuizar perante a impureza ritual, a da violação da regra sacralizada em tabu, em vez de agir ou ajuizar sobre a violação de um preceito de conduta. A raiva justa compreende-se; a condenação à impureza verifica-se.
Lamento o homem. Pela banalidade, pelo peso do silêncio e, agora, pelo nojo.

16.8.06

A má acção. Censura e impureza.

Take 1.
- Ó pá, desculpa lá, foi sem querer/estava em erro e não percebi a javardice que estava a fazer.
- Ahh, então se foi sem querer/se reconheces e superaste o erro, o que fizeste não é tão mau como parece. Toma lá uma desculpadela/uma censura atenuada.

Take 2.
- Ó pá, desculpa lá, não sabia o que estava a fazer/não pensei bem/era um parvo.
- Soubesses ou não/tenhas ou não tenhas superado o erro/tenhas ou não actuado outramente e bem, fizeste o que não é de fazer. Estás impuro, contaminado pela hedionda acção. Ainda bem que nunca te apertei a mão. Vai furar os olhos. Quero lá saber que te chames Grass, ou Édipo ou lá o que for.

22.7.06

Tempo do Mal

Beth Moon, Seen But Not Heard: The Great Clock of Gormenghast
Um rapaz sem flor de acne disse por aí que era sexta (ou sábado), havia anos talvez, e ela não apareceu. Insana. Ou, se não, trocados estariam os relógios...

19.7.06

Post moderno na efeméride

(...)

Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

(...)

Em honra dos (glaciais) humores cruéis, frenéticos e exigentes, no aniversário da morte de Cesário Verde.

17.7.06

Ciências do natural #3. O discreto e o contínuo no verbo "estar"

Há dias que não passaram, outros que se degradaram no uso da recordação e se tornaram miragens. Há muitas coisas para fazer sempre, há sempre muitas coisas, os dias são vítima disso. Em alguns dias bem-aventurados, pode-se soltar o tempo de mergulhar, os olhos presos pelos olhos. Quem diz os olhos, diz uma área circunscrita de pele, uma sombra fresca, uma guinada de som, uma ideia cheia e sumarenta. Fazem-se instantes que são infinitos contínuos, nós mesmos enrolados em clausura firme, num tempo que parece para sempre, para sempre, fincados num nó apertado da memória. É daí que depois espreitamos os dias discretos que passam, de onde tantas vezes estamos ausentes.

14.7.06

Check list

Diana Blok, Boy with Birdcage. 2003 [click!]

Basta de candeeiros e beatas, de passadeiras e escadas, de deglutições em magote, de gravatas relativamente recentes e de camisas mal passadas por enfermeiras ucranianas.
Basta de ATM's e de blisters (mas alguém tem de fazer um poema rapidamente com a palavra blister!) e de brushings e de unhas manicuradas que só duram dois dias. De aftershaves a conta também já chega.
Basta de ideias inúteis e de descobridores de fósforos.
Já chega de sabões, detergentes, ratos sem fios e a tralha a acumular-se e de grupos de meninas em três na cervejaria do Chiado, a gordinha a chaperonar a bonitinha, a viborazinha em treinos. Prefiro também não ver pijamas intelectuais pelos locais de estilo. Alguém que me explique também o que se passa em algumas livrarias, onde todas as almas penadas circulam num ritmo amoroso fúnebre.
Ainda não estou a fazer oitenta anos, mas mesmo assim digo que já basta. Não tarda, zarpo para as ilhas, com as vacinas em dia.

10.7.06

Práticas eugénicas

Considerando que as universidades são caldo de endogamias, fica-se a aguardar com grande expectativa o resultado do cruzamento da competência académica de umas com a competência atlética de outros. É este o meu comentário - muito lateral, é certo - ao dossiê do NYTimes sobre assimetrias de género nas universidades americanas. Os rapazes das famílias más andam tramados; por cá também, mas ainda ninguém lhes deitou a mão.

9.7.06

O que se faz #5. Costura-se a voz

Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem

falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta
e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme

("Poema I" da Luiza Neto Jorge)

Contraponto

Também gosto assim.

Foi bonita a festa, pá


Em geral pois, como se diz por aí, não há regra sem excepção(ões).

Even educated flees do it

As fêmeas antílopes cortejam-se entre si e acariciam despudoradamente a genitália das suas preferidas, esteja ou não algum macho túrgido por perto. Os machos golfinhos juntam-se aos pares, podem até admitir fêmeas passageiras, e vivem nessa dupla longos anos de dedicação e meiguices. Os bonobos baralham as regras e acasalam com tudo o que vier à rede: fêmeas, outros machos, sem qualquer atenção à posição hierárquica na comunidade. Os babuínos, ferozes guerreiros, amam-se entre si, como gregos virtuosos. Há carneiros de porte castrense que são bichas impenitentes. E os polvos, até os polvos, querem lá saber da transmissão dos genes e não perdem oportunidade de um one-night-stand nas noites eternas dos mares profundos, com um outro bacano qualquer, ainda que de outra espécie, ainda que quatro vezes maior, que esteja a fim da interacção mais misteriosa da natureza. Nem os patos escapam à barafunda, incluindo em respeitáveis famílias um macho suplente para todo o serviço, inclusivamente o baby-sitting de patinhos satisfeitos e bem-comportados. Isto tudo aprendi eu ontem depois de me ter baralhado entre as folhas repolhosas de um Expresso deslavado, que em boa hora troquei por um programa da dois.

6.7.06

Ando batida aos pontos por um bronco

De subtilezas é o que reza a história. Não faz mal que tudo não passe de uma lengalenga, cantilena, ladaínha. A gente entretém-se e acontece entre as dobras, penugem ao vento. Mas um bronco não. O bronco é nesse sentido um tipo glabro, coriáceo. A espinha, creio eu, não se lhe arrepia, pois de tão dúctil se fez víscera suplementar, que malignamente me ocorre servir apenas de trânsito a portentoso bolo fecal. Não é a falta de letras, nem de cromossomas, nem a falta de ocasiões e de oportunidades, o que está na origem do bronco. Não sei como se diz "eu expando-me leve e flexível" nas narrativas do bronco. Até nisto o bronco exerce a sua insidiosa opressão. Nisso, sabotando-me insuperavelmente a possibilidade de enunciação, e também neste encalhamento opressivo que não me deixa sentir o cheiro da aragem, apesar de o dia estar azul e radioso. O bronco sabe que é bronco aos meus olhos e gosta de o ser. Assim ainda lhe sabe melhor levar-me ao tapete. O bronco também converge comigo quanto ao facto de estarmos de lado opostos sobre o que vale a pena. Está criada, pois, a situação laboratorial e o resultado não é muito animador: o bronco vence-me aos pontos, até agora; se ele acabar por vencer, hei-de tornar-me totalmente marginal, periférica, subinstanciada. O chimpanzé da imagem está comigo, é dos meus, acalenta-me.

3.7.06

It's Monday Holy Shit

[ Andy Warhol, The Kick. 1986 click!]

É desta. Começo a gostar do futebol


Sim, isso, as imagens das caras e dos gestos, uma torrente de expressão dos corpos e das faces, dos braços, das mãos. Além disso, as pessoas ficam bonitas. A bola, as regras do jogo e as bandeiras ainda não me cativaram, mas isso começa a parecer-me irrelevante. Não deve haver coreógrafo, por mais genial e bem equipado, que consiga replicar tanta energia e emoção.

2.7.06

Ciências do natural #2

Tracey Emin.

O exercício do poder sobre alguém começa sempre assim. Confia em mim, que quer dizer, confia-te a mim. Eu nunca consigo confiar em quem pede a minha confiança. E se tento, perco-a de vista. E se confio, é porque já confiava. Confiar faz parte dos actos livres e gratuitos, governados por uma vontade que não se deixa modelar pelas ponderações do que é mais adequado fazer. No exercício do poder sobre os outros é preciso ter isso em conta. Na submissão ao poder dos outros sobre nós é escusado omitir a reserva nas conversas com os botões. É uma terrível perda de tempo o tempo de vida que se leva a perceber que se faz sempre o que se quer. Pior ainda é o custo da sabotagem da nossa vontade. Lá para a frente podem receitar-nos uns ansiolíticos para vivermos mais confortáveis com isso.

Pastoreando de táxi

Oggy Ogburn, Ebony Horseman.

Ontem voltou-me a palavra "macambúzio". Estranhando-a, fui procurar a etimologia. Embora apresentada com incerteza, encontrei a tese de Nei Lopes, segundo a qual a palavra terá origem numa fala banta de Moçambique, em que makambuzi significa 'pastor de cabras', palavra que, por sua vez, deriva de mukumbuso, 'memória, lembrança, recordação' (em nianja, m'busa 'pastor', kukumbutsa 'recordar'; em suaíle kukumbuka 'recordar'). E uma frase:

para o cafre da Zambézia, o símbolo da tristeza é o pastor no isolamento da campina distante, vigiando o rebanho

O senhor Sousa pastoreou-me no seu táxi ontem à noite. Eu fui a ovelha desta vez. Tinha umas réstias de Rachmaninov ainda comigo.

1.7.06

Apreensão metafutebolística

Não sigo o futebol, mas sigo com delícia o entusiasmo pelo futebol. Quando acabar o campeonato vai toda a gente voltar ao macambuzismo? Vai, não vai? Não estou a falar da festa lá na Alemanha. Estou a falar daqui, da quantidade de sorrisos e caras desfranzidas que ando a ver nas últimas semanas.

Paixão pelo Mal


Parabéns, Luís. Aliás, obrigada.
Ou melhor: muito obrigada por nos deixares partilhar o que vês.